Jornal do Brasil

Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

Seres estranhos e amigos do peito

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Há uma semana comecei (de novo) a arrumar o meu escritório, que às vezes vira quarto, quando eu ou minha filha hospedamos algum amigo.

Dessa vez foi um colega dela que tinha ido morar há vinte  anos em Barcelona pra fugir do Brasil, pois tinha passado por momentos tenebrosos em São Paulo, que não conseguia tira-los da cabeça. Momentos estes que ele me contou na época, quando veio pro Rio antes de viajar pra Espanha.

Estava passeando no carro de uma amiga, dirigido por ela, quando, de repente, foram desviados de sua rota sem saber como nem por quê, e o carro, que já  estava sem gasolina, se desviou para uma estrada dentro de uma mata cerrada e cheia de cachoeiras e passarinhos, que eles jamais tinham visto antes, alem dos seres estranhos que os conduzia a lugares diversos, onde eles ouviam vozes e viam coisas.

No meio da narrativa que ele me fazia com muito medo, disse que se eu não acreditasse nele porque era muito jovem, poderia ligar para a sua amiga que tudo presenciou.

Liguei pra ela, em São Paulo, que me disse que tinha ficado num estado tão grande de pânico, que pedira licença do seu emprego.

Isso ele me contou quando não havia mais hippies que” viajavam” com drogas, como nos anos 60, 70, e viviam se surpreendendo com extra-terrestres ou naves espaciais. Mas uma pessoa careta, no sentido de não se drogar, jovem e verdadeira, me deixava absolutamente surpresa com sua história de um incrível suspense e um final repleto de acontecimentos inesperados como estranhas presenças e  abduções.

Dessa continuação da história, fui saber agora, no mesmo quarto onde ele se hospedou e me contou o início.

Estava arrumando os quadros da parede quando me deparei com o cartaz de uma peça que estava no meu escritório e quando o fui tirar da parede, comecei a me lembrar da época e dos amigos que participaram dela.

A peça chamava-se Larga do meu pé, uma tradução humorística do título original, em francês, Um fil à La patte, de George Feydeau, que encenamos no Teatro Villa Lobos, dirigidos por Luiz de Lima: Jonas Bloch, Sandra Brea, Rosita Thomaz Lopes, Daúde, Nádia e Tania Nardini e um garoto lindo que se chamava Marcos Palmeira e que veio me dizer que era filho do meu amigo Zelito Vianna.

A intimidade de alguns atores comigo fez com que virássemos amigos para sempre, fora Rosita que eu já conhecia e adorava, da casa do Carlos Perry, que montava espetáculos no pátio da sua casa, de uma maneira super moderna, e convidava atores para as apresentarem, dirigidos por ele, que logo viravam profissionais, como o caso da Rosita. Conheci-a quando era pequena, e ela, amiga dos meus pais, que me levavam sempre a esse teatro improvisado.

Na peça, que muitos anos depois encenamos juntas, não podíamos nos olhar porque ficávamos com vontade de rir, acho que por um certo tipo de humor parecido, quando tínhamos, por exemplo, que fazer reverencias com vestidos muito longos do século dezenove e nos enrolávamos todas.

Essa peça ficou um bom tempo em cartaz e cada vez o elenco se tornava mais íntimo, saindo pra comer depois do espetáculo.

Então resolvi deixar o cartaz continuar preso na parede, porque cada dia me fazia lembrar de uma história mais engraçada, que contei pro nosso novo hóspede, que também é ator, e adorou ter um quarto decorado com o nome daqueles atores maravilhosos.

Então, numa ironia do destino, no dia seguinte, me ligaram pra avisar da morte da Rosita.

Mais um choque que vivemos todos levando nesses últimos tempos.

Antes éramos um contexto, agora fomos virando monólogos que às vezes se conectam com outros.

Que tempos maravilhosos aqueles em que ninguém morria, vivíamos às gargalhadas, ninguém sumia nem largava dos nossos pés. Que esse cartaz seja abençoado como foi a época dele apesar de todos os ETs, e nos traga sempre a Rosita de volta com sua beleza e humor.

Tags: Artigo, coluna, JB, maria lucia dahl, rosita

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