Os shows da vida
Quitandinha nunca tinha me visto assim: essa senhora que lá voltou depois da infância e da adolescência carregando dentro dela aquele espírito carnavalesco, de férias, cuja alegria já a contagiava da porta de vidro que rodava dentro do hall de mármore preto e branco, deixando um cheiro forte de lança-perfume no ar.
Todas as férias grandes que passei em minha vida foram nesse hotel vendo os artistas de Hollywood bebendo no bar, tais como Lana Turner, Broderick Crawford, e outros que não me lembro, alem das atrizes brasileiras Eliane e Adelaide Chiozzo, subindo, como celebridades no elevador, olhando através das pessoas para que ninguém falasse com elas, o que me fez detestá-las pela antipatia, mostrando que aquelas gracinhas da Atlântida, era tudo um disfarce. Ainda não entendia de gente famosa e seus tipos de posicionamento diante do público. Sei que passei a implicar com essas atrizes por causa de seus narizes pra cima no elevador do hotel. Já no bar, os atores de Hollywood falavam com todo mundo, em Inglês, bebendo uísque e rindo muito.
Lana Turner usava grampos dourados que se confundiam com seus cabelos louros. Um dia minha irmã achou um deles no chão do tapete do corredor e guardou-o como uma relíquia que durou anos. Mas nunca fomos tietes de ninguém. Apenas gostávamos dos shows de Carnaval que víamos com alguns artistas da Rádio Nacional que se transportavam para o teatro de Quitandinha lançando suas músicas, que muitas vezes já tínhamos assistido na própria Rádio Nacional nos shows do Rhum Creosotado, remédio que pertencia a minha família, cujo versinho do bonde foi feito por meu avô, o poeta Gastão Penalva. O remédio patrocinava também a dupla Alvarenga e Ranchinho que desciam à plateia pra falar comigo, que, morta de vergonha, escondia o rosto entre as mãos.
Nos nossos aniversários, meus e da minha irmã, os artistas também iam cantar lá em casa, como Black Out, Jorge Veiga, etc, o que fazia as empregadas ficarem babando, emocionadas.
Mas voltando à Quitandinha, mais tarde, quando já era adolescente, gostava de assistir o balé da Marcia Haydée, com o bailarino Yellê Bittencourt, por quem fui apaixonada, Johnny Franklin e outros. Yellê foi o único artista que eu olhava de longe, com olhos de cobiça, não por que era artista, mas por uma paixãozinha de adolescente, ao que era correspondida também com olhares e uma ligeira troca de palavras que me deixava completamente envergonhada, a ponto de pagar o mico de sair correndo pelos enormes corredores do hotel, com o coração aos saltos.
À noite meus amigos, também adolescentes, tocavam numa pequena banda, músicas de todos os tempos, ou até compostas por eles e ficávamos todos no bar ouvindo-os, até adultos, que adoravam seu repertório e maneira de interpretá-lo.
Tudo isso acontecia até Quitandinha se converter em apartamentos que foram vendidos e acabarem com o hotel, o que me fez perder o chão durante o tempo das férias do colégio, até papai nos levar para viajar de navio pros Estados Unidos e Europa, onde podíamos ver os shows dos cantores Marlene e Michael que eram também bailarinos do navio Brazil, que salvaram nossas férias, sempre com ótimos fundos musicais.
Agora, voltei à Quitandinha, sempre na cola da cultura e dos shows.
E dessa vez fui com uns amigos assistir a exposição do pintor Luiz Aquila, que comemorava os seus 70 anos, e o show do músico Mariano, que escreve também no Jornal de Petrópolis,e canta divinamente as canções de Edith Piaf, Charles Trenet, Frank Sinatra e mais alguns daquela época que ainda pegaram Quitandinha, o que me fez pensar que nunca vi um repertório tão perfeito para o tipo de pessoas que foi assistir ao seu show e ver as evoluções surpreendentes dos quadros do Aquila com sua dinâmica sempre renovada assim como as cores e pinceladas mais finas ou mais grossas, suas cores mais berrantes ou mais tênues dentro de uma eterna evolução interna.
