Jornal do Brasil

Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

A preservação dos bairros

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Botafogo da minha infância era o bairro das casas mais bonitas do Rio de Janeiro, como a de Rui Barbosa, um dos personagens mais conhecidos da História do Brasil. 

A casa em que ele viveu de 1895 a 1923, em estilo neo-clássico, foi adquirida em 1924 com todo o seu acervo, pelo governo brasileiro, que conserva até hoje os seus móveis e objetos de família, os arquivos, a biblioteca, os jardins.

Hoje em dia a casa funciona como fundação, e mantém um espaço reservado ao trabalho, consulta de livros, estudos, ciclo de palestras, música, etc. A quantidade de casas que também poderiam ser aproveitadas como a da família de Santos Dumont, ao lado da que eu morava em criança, a da Condessa Pereira Carneiro, a do Simões da Silva, um museu cheio de cabeças de índios, casas neo-clássicas, coloniais, art-nouveau, art-deco, às vezes construídas em ruas pequenas onde ficavam uma ao lado da outra.

Quase todas essas existem até hoje, e algumas resistiram ao comércio e continuam hospedando alguns eternos e felizes moradores, como vizinhos que tive e tenho na Rua da Matriz, por exemplo, onde morei com meu avô, o escritor Gastão Penalva, que a alugou de uma família que depois voltou pra lá e ficamos amigos até hoje. É uma alegria incomparável deparar-me com essas casas e esses amigos. Uma alegria que contagia a rua com gargalhadas e lembranças, dando um novo fôlego para se enfrentar o trânsito, ver o lixo espalhado pelas ruas, viciados em crack caídos pelo chão, sozinhos e meio mortos, ou em grupos pedindo dinheiro, pessoas que variam de crianças a velhinhas viciadas caídas nos terrenos abandonados do bairro.

Atualmente quase todas essas casas maravilhosas de que falei, viraram prédios ou lojas com os estilos verdadeiros transformados em estilo "neo-acredito”, como o prédio de mil andares que estão fazendo na minha rua. O terreno fica grudado a uma ex-vendedora de automóveis, que, por sua vez, é grudado ao muro de nossas casas, foi destruído pela obra sem que ninguém pedisse licença aos moradores que dividem o muro com a casa de automóveis. A obra parou no meio, deixando a casa aos pedaços e com o muro, grudado ao da minha casa e a de mais cinco, derrubado pela metade, segundo a construtora, porque foi embargado junto com a vendedora de automóveis, não se sabe por que ou por quem.

O muro dessas cinco casas coloniais pode desabar a qualquer momento, segundo amigos engenheiros, e a construtora, que não está nem aí, continua fazendo o seu trabalho, felizes da vida, como se nada houvesse.

Falei com a Prefeitura, com a Defesa civil, que foram muito simpáticos, mas que desde dezembro não vieram aqui ver o problema de perto como prometeram.

Meu amigo advogado está só esperando pra entrar com uma ação. A última espera a que eles atribuíram foi a do Carnaval, sem falar da Quaresma, Natal, julgamento do mensalão, aniversário de políticos, feriados de pedreiros. E assim vamos nós, envelhecendo á espera de Godot. 

Senhor prefeito, seria possível dar uma ajudinha a um dos bairros históricos e bonitos do Rio de Janeiro antes que o muro desabe devido a falta de atendimento generalizada, machucando alguém, ou vai ficar como o viaduto do Joá, que pode desabar a qualquer minuto sem ninguém tomar a menor providencia, ou ajudado pelas chuvas que virão provocadas pela proximidade de um asteróide ou do planeta Ison que não aparecia desde o século dezoito causando dilúvios sem fim?

Tags: Botafogo, Casa, crônica, JB, maria lucia dahl

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