Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

Butique Condotti

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Andei meio dolorida numa mistura horrível de gripe com artrose que acabou me levando ao Hospital Silvestre, em Botafogo.

Fui encaminhada à sala de espera com pacientes de todo tipo de médico e uma secretária que gritava o nome do cliente encaminhando-o ao seu devido consultório. Tudo muito bem organizado, embora bastante cheio, mas nunca lotado, com filas, e tudo andando depressa, embora  o tempo em que as pessoas fiquem ali sentadas acabe se transformando numa análise de grupo.

"Eu te conheço", me disse uma moça. 

"Você não era dona daquela butique chamada Condotti, em Copacabana?"

"Meu Deus!", respondi. 

Que coincidência! Não falava dessa loja há milênios, quando, semana passada, encontrei uma amiga que também não via desde aqueles tempos, e que ia sempre lá. Ficamos lembrando dos frequentadores maravilhosos que transformaram a nossa loja, minha e da Sonia Ramalho, num verdadeiro point!

Não me lembrava da moça do hospital, mas éramos amigas em comum dos vários frequentadores da Condotti: as meninas Mangia; Sonia, minha colega do Sion e suas irmãs;  Cristina e Wandinha. Essa última, que morava ao lado da loja, vivia lá e até nos ajudava a vender roupas quando estávamos muito ocupadas. Dizia que adorava fazer aquilo, e ao mesmo tempo, conversar com os amigos que não saiam de lá, tais como Serginho Bernardes, Buzina, que acabou se casando com a Cristina, Edilberto e Joaquim Ribeiro de Castro, Othon Bezerra de Mello, o argentino Cachorro, Mauricio Bebiano e muitos outros, que sentavam nos sofás, contavam casos, e só saíam quando entrava alguma freguesa, pois os frequentadores eram muitos e a loja tinha de se tornar mais profissional. Foi uma das primeiras lojas para jovens com biquínis, saídas de praia, vestidos e sapatos, muitos desenhados por mim.

Assim que a butique fechava, íamos pra uma confeitaria ao lado (à qual, nós duas esquecemos o nome), comer doces e tomar sorvetes.

Ouvíamos os nomes dos pacientes chamados pela secretária na sala, mas não prestávamos atenção, pois tínhamos voltado ao final dos anos 60 e nosso papo ainda durou bastante tempo enquanto tentávamos lembrar do nome da confeitaria que toda hora parecia que viria à tona em nossas mente, mas não vinha.

Lembrei do dia em que cheguei na loja com minha sócia e estava tudo fechado na rua. Ficamos espantadas sem saber o que estava acontecendo pra fecharem o comércio num dia de semana. Então perguntamos a um homem, sozinho, que passava rápido pela Barata Ribeiro o que tinha acontecido e o homem respondeu que o Jânio tinha renunciado, e que era melhor nós irmos embora por que estava tudo em sinal  de alerta.

Tudo isso lembrei junto com a moça do hospital menos o nome da confeitaria. Então, assim que a moça saiu pra falar com a secretária, eu me lembrei, de repente, do nome e dei um grito pra que ela me ouvisse:

- Vindobona!

Então a atendente do balcão achou que alguma paciente não tinha ouvido o seu próprio nome e gritou:

- Dona Vindobona está esperando aqui? Por favor, tem alguma Dona Vindobona para ser atendida?

Até nós duas darmos gargalhadas e dizermos, em coro, uma pra outra, alegres e contentes:

- Vindobona! Vindobona! Aquela confeitaria divina que ficava perto da Barata Ribeiro!

Todos nos olhávamos como se fossemos loucas enquanto nos abraçávamos e nos despedíamos, rindo.

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, sexta

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