Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

As diferenças da idade

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Estava fazendo fisioterapia na coluna por causa de uma dor que me apareceu de uma hora pra outra. Uma paciente se espantou tanto com a minha cara abatida que me disse que achava que eu estava com dengue e que deveria ir ao hospital defronte, fazer uns exames.

Como, praticamente, era quase só atravessar a rua pra estar no hospital Silvestre, resolvi seguir os conselhos da paciente porque estava me sentindo péssima.

Cheguei lá e fui maravilhosamente atendida pelo médico da emergência que me fez exames, algumas radiografias e afastou totalmente a possibilidade de dengue. Fiquei, então, entregue a uma gripe muito forte, febre e as dores da coluna que se somaram a elas.

Então liguei pra uma amiga contando a minha história e perguntando: a que poderia estar ligada essa dor na coluna? Ao que ela respondeu rindo: "idade, ora essa!". "Nossa geração inteira se queixa de alguma coisa relacionada a ela: idade".

Então entrei no soro e fiquei esperando meu companheiro chegar pra me buscar, falar com o médico e comprar uns quinhentos remédios! Enquanto isso fiquei me lembrando dessa mesma geração, quando era criança, que também tinha problemas em relação à idade, como babá dizia: “febre alta quer dizer coqueluche, catapora, inflamação nas amígdalas, apendicite...”. Mas eu não ficava com medo nenhum do que ela me dizia devido a pai, mãe, avó, babá tomando conta de mim, até meu pai chamar o Dr. Mario Olinto, que além de ser o melhor médico do mundo, era carinhoso e fazia graças pra gente. Era até um prazer ficar doente para encontrar com ele. Medo não existia. Medo de quê? Ao contrário da idade de hoje em dia que nos enche de medo de saúde, possível falta de trabalho, perda de amigos, ainda temos preocupação de todos os tipos com os filhos e netos que não atendem telefone, voltam tarde, mudam de programa sem avisar, viajam, enfim, estão sempre nos fazendo padecer no paraíso. 

Naquela época, medo, só de tirar a cruz que carregávamos no pescoço no uniforme do  colégio Sion, que, vez ou outra era tirada por Soeur Célia, na assembleia, na frente de todas as alunas e professoras juntamente com a frase: “Ne mérite pás La croix”, dita por Notre Mere, que dizia também que não merecíamos Jesus”, acompanhada do coro de alunas na assembleía que dizia; “Ohhhhhhhhhh”.  Isso por termos conversado no recreio em vez de jogar barra-bola, o que me provocava uma falta de auto-estima que ainda me rende  anos de psicanálise.

Amava Mére Conceição, que era alegre,tocava violão e cantava pra gente. Quando me lembro do Sion, é ela que me vem à cabeça, alem da capela, das colegas queridas e dos azulejos do chão, que se fixaram na minha cabeça ouvindo a freira mandar: “pula um quadradinho”, o que queria dizer: “não fiquem grudadas na fila, pulem um azulejo” que eram daqueles desenhados que percorriam quase todo o chão do colégio.

A vida era alegre, tudo era brincadeira e felicidade, mesmo as doenças acompanhadas  pelo Dr. Mario Olinto.

Hoje elas são seguidas por médicos sérios, psicanálise, psiquiatria, preocupação, medo, fora os amigos e companheiros que vem mostrar que ainda existem mères Conceições, que  Jesus jamais nos abandonará e que podemos rir muito com eles ainda, mesmo conversando no recreio em vez de jogar barra-bola.

 

Tags: colunam, dahl, lúcia, Maria, sexta

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