A vida como ela é
Hoje é o quarto dia da morte de Walmor Chagas e ainda me sinto chocada. Ria tanto com ele num festival de cinema de Brasília, que fomos juntos, subindo e descendo com os políticos no elevador, cujo olhar nos atravessava como se não existíssemos. Então, Walmor aproveitava a nossa transparência e me dizia entredentes:
- Que é que esses dois estão fazendo juntos aqui?
- Não sei. Boa coisa não é - respondia eu.
Então começávamos a gargalhar como se estivéssemos numa sala de aula, debochando dos professores. Combinamos de escrever um roteiro de cinema juntos e ele me ligava sempre da fazenda onde morava pra dizer como iam as coisas, mas desanimava com a insuportável “captação de recursos”, que, segundo ele, nem um ator com tantos anos de experiência conseguia. Acho que acabou se sentindo humilhado com isso e foi deixando de me ligar, o que me fez deduzir que tinha desistido do projeto.
Nunca mais falei com ele, até ver a notícia de sua morte no jornal. Walmor morreu nessa fazenda pra onde se mudou pra fugir do mundo. Acontece que não se foge de nós mesmos e quando a solidão realmente toma conta do seu mundo, é muito difícil se reencontrar.
Não achei que ele fosse tão popular nos botequins do Rio, mas passei por um deles, no Leme, e as pessoas só comentavam a sua morte. No outro, ao lado, frequentado por jovens, tocava-se samba e dançava-se Carnaval que já começava a comer solto. É assim mesmo: um dia, luto, no outro, Carnaval, ou junta-se tudo ao mesmo tempo: luto e Carnaval e assim se compõe o samba da nossa vida.
No fim da tarde entrei no Facebook pra mudar o assunto da minha cabeça, e vi que Jesus queria ser meu amigo. Achei que era coisa de evangélico, e resolvi entrar pra me certificar. Era o JesusChediack me convidando pra ver a peça que ele dirigiu sobre os cem anos de Nelson Rodrigues. Corri da Barra até a cidade, e consegui chegar na hora de assistir “As mulheres de Nelson”.
Na minha frente e na do meu companheiro, três velhinhas daquelas bem antigas, magrinhas, surdas e de cabelos brancos discutiam se a peça era de Nelson Rodrigues ou Nelson Gonçalves. Quando soube pela amiga que era do Rodrigues, a fã de Nelson Gonçalves se aborreceu e ameaçou ir embora, mas as outras duas conseguiram convencê-la e ela ficou, reclamando, o que já parecia uma mostra do humor de Nelson Rodrigues.
À noite fui visitar uma amiga que estava doente. Quando cheguei na sua casa encontrei-a alegríssima e a cem por hora. Perguntei o que a tinha curado tão rápido e ela me disse que o cunhado de sua empregada mandou-lhe um recado, descrevendo-a dos pés à cabeça, física e moralmente sem jamais tê-la visto ou ouvido falar dela. E avisou que iria curá-la de um dia pro outro, imediatamente.
Então ela me contou que no tal “dia da cura” que ele estabelecera, ela teve muito sono, cedo, coisa inconcebível pra uma pessoa que desde garota só dorme de manhã. E disse também que quando acordou, no dia seguinte, não sentia mais absolutamente nada.
Impressionada, ela perguntou à empregada como poderia agradecer ao homem que a curou, e quanto custava o milagre, e a empregada respondeu que ele não fazia o bem por dinheiro e que só queria que ela ficasse em paz com a graça que recebera.
Minha amiga achou que ele trabalhava em algum lugar específico para curar as pessoas e pediu para ir até lá, mesmo que tivesse que enfrentar filas e ir até o subúrbio, e a empregada explicou:
- Não senhora. Ele não fica em igreja nenhuma nem recebe ninguém e cura as pessoas que ele escolhe, de longe.
- Mas e o que é que ele faz na vida? insistiu minha amiga..
- É apontador - respondeu a empregada.
- Apontador de quê? continuou a patroa.
- De jogo do bicho, dona Regina - respondeu a empregada.
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