Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

O revólver de brinquedo

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Rua Visconde Silva 161, Botafogo, antes de virar Colégio Andrews. De um lado os vizinhos da família Santos Dumont, do outro, uma casa de cômodos com seus personagens de “O Cortiço”. Famílias decentes e muito pobres moravam no casarão caindo aos pedaços com suas vielas íngremes que terminavam no morro. 

No nosso jardim, um imenso gramado dava água na boca aos meninos do lado que olhavam cobiçosos por entre o muro de fícus, cuidado por seu Manoel, o jardineiro português. Um dia não resistiram e pularam pra dentro da casa pra jogar futebol. Tinham sete, oito anos de idade, assim como eu.

Seu Manoel pegou a tesoura de cortar grama e avançou contra os meninos, que pularam, correndo, o muro de volta, enquanto o jardineiro ameaçava cortar os seus pés. Um sentimento desagradável e difuso tomou conta do meu peito.

À noite, do quarto contíguo ao meu e da minha irmã, vovó nos lia a tradução de Olavo Bilac do livro alemão  “João Felpudo”, onde se via a figura de um “negrinho” de guarda-sol.

“Muito limpo e direitinho passa na rua um negrinho com seu guarda-sol aberto. Gaspar, Luizinho e Roberto que vivem constantemente caçoando de toda gente. Mal veem o pobre passar, começam logo a vaiar: 'olha o boneco de pixe, macaquinho de azeviche, bobo alegre, sai, tição!”.

Fixava a figura do livro e pensava nos negrinhos que brincavam na rua olhando pro alto e apostando quem veria primeiro um balão: “olha lá um balão, primeiro a piar!”. Os mesmos que vendiam jornal pro meu pai, sacudindo as moedas na mão: “jornal, jornal, jogo niquenal!”. Também os mesmos que reprimiam o colega sem jornal, que pedia: “me dá um trocado?”.  E os vendedores de jornal replicavam: “Ih, camarada, você é pidão!”.

Gostava daqueles negrinhos muito limpos e direitinhos que brincavam defronte a nossa casa correndo atrás da bola que pulava entre os paralelepípedos fugindo dos seus pés descalços.

“Me dá um trocado?", pediam eles com inveja do pão com goiabada que eu comia esperando o ônibus que me levava ao colégio Sion. “Sai, moleque!”. Enxotava-os a babá, puxando-me pelo braço.

Tête á Tetê com eles, os “negrinhos”, só no “ Natal dos moleques”, que vovó fazia pra eles, os meninos do cortiço, “macaquinhos de azeviche” que comiam bolo com guaraná, e se retiravam contentes, de volta à sua pobreza, revólver de brinquedo na mão.

Ontem, fui a Santa Teresa almoçar com minha filha e meu neto, de carro. E quando apreciávamos a inacreditável paisagem e aparente tranquilidade do bairro, dois negros fortes nos apontaram suas armas reluzentes, mandando parar o carro.”Passa o dinheiro, dona!”.  “Ih, camarada, você é pidão”. Lembro dos garotinhos da minha rua, enquanto procuro o dinheiro na minha bolsa, revólver apontado pra minha cabeça. “Só tenho isso, moço”, respondo procurando o seu olhar que se desvia do meu. “ Me dá um trocado?” Pediam os meninos de rua. O troco dado ao meu sanduíche de goiabada, ao frustrado jogo de futebol, à tesoura do jardineiro, seu Manoel. O assaltante sai levando o que eu tinha e retira-se pra sua pobreza levando consigo seu revólver de verdade, enquanto, finalmente,  defino o sentimento difuso que me causava tanto mal estar quando criança.

Era o de injustiça.

 

 

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, sexta

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