Cinemas Novos
Fui ver o filme do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, “O som ao redor”, que ganhou todos os prêmios importantes na Europa, e foi pra mim uma surpresa. O filme é hiper-realista, em relação ao Brasil, aos fatos, à direção e à atuação dos atores.
É um filme que fala dos pobres e dos ricos, empregados e senhores de engenhos de Pernambuco, sem mostrar folclore, cangaceiro, nem tramas de amor, como os filmes do Cinema Novo, mas expondo tudo o que víamos em Glauber Rocha, por exemplo, com uma narrativa totalmente diversa, mas dizendo que o Brasil continua absolutamente igual ao que sempre foi.
No começo, a gente fica meio intrigado, pensando no que vão dar aquelas cenas engraçadas passadas em locais diferentes de um mesmo prédio, com vários personagens e histórias, de que forma elas vão se cruzar, se vão se cruzar, até chegar a um final surpreendente depois de um cotidiano repetitivo e real.
Tenho gostado muito dos últimos filmes brasileiros que vi, e nem vou citá-los aqui de novo, mas este,”O som ao redor”, já me pegou desde o título, mostrando que sempre existirão formas novas de se fazer arte sem precisar de clichês.
Gosto muito do Cinema Novo, que mudou totalmente os filmes brasileiros, que antes dele, eram considerados bregas, mal feitos, enfim,”filmes nacionais”, o que já era uma forma de depreciação, embora eu gostasse muito das comédias da Atlântida, por exemplo, com Oscarito e Grande Otelo, humoristas tão maravilhosos como Chaplin, cada um no seu estilo, naturalmente.
Trabalhei com Grande Otelo, que foi bem aproveitado pelo Cinema Novo, no filme do Joaquim Pedro de Andrade, o excelente, 'Macunaíma', que filmamos numa lagoa tipo Barra da Tijuca, e eu fazia a Uiara, que tinha de ficar todo o tempo debaixo d´água, armando pra cima do Paulo José. Joaquim Pedro brigava comigo, dizendo que eu não tinha fôlego, e que Esther Williams ficava meia hora sem respirar. Meu Deus! Me comparar a Esther Williams, a sereia de Hollywood, ali, naquela lagoazinha sem nenhum efeito especial era um pouco demais!
Mas nos divertíamos muito fazendo o filme, que era maravilhoso, do texto de Mário de Andrade à realização do Joaquim Pedro, a atuação dos atores e o humor do Otelo em suas caras e expressões.’
Já tinha feito outro filme, “Menino de Engenho”, e por causa dessa nova profissão de atriz fui-me apaixonando pelo Brasil, por onde viajávamos do Oiapoque ao Chuí , além de conviver com pessoas maravilhosas que compunham as equipes de filmagens, que, à noite, tocavam violão pra gente a céu aberto, debaixo das árvores e das estrelas salpicando o chão.
Pena que um dia tudo vira ao contrário, e a gente volta a ser espectadora, vendo os filmes à noite, na cama, dentro do quarto fechado, pelo Canal Brasil.
