Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

O Rio de Janeiro, fevereiro e março

Quarenta e cinco graus à sombra. Mas que sombra?

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Foi como se o Rio de Janeiro nos tivesse expulsado de morar dentro dele por um tempo. Talvez queira  ver milhões de turistas achando graça nesse calorão e aproveitando as praias, lagoas, cachoeiras, piscinas e achando tudo isso um esplendor, o que eu acharia também, se fosse um deles, em vez de ver os cariocas  reclamando do trânsito, do calor e das milhões de pessoas que entopem todos os cenários. 

Mas como, infelizmente, não sou de fora, vou me transformar num deles, em Petrópolis, onde sempre passei férias e me deslumbrei com a cidade. Só pensei que lá estivesse mais fresquinho. Talvez, mas muito pouco. Petrópolis não tem ar condicionado, só lareiras, então fica meio por fora do verão, mas começo a me alegrar só de subir a serra com meu companheiro e meu neto mais velho, de 12 anos. 

Passamos  por aquele monumento chamado de Belvedere, que foi construído quando eu ainda era garota e algumas vezes entrei nele com meus pais pra comer bomba de creme ou chocolate. Era um lugar estranho por que ficava longe da estrada, tinha-se que fazer uma volta, não me lembro bem por onde, a questão é que o Belvedere não colou mesmo quando ainda se subia pela estrada velha onde se dava a tal volta, mas quando se construiu a estrada nova, ele ficou apagado, chamando a atenção  por seu tamanho e local. Mas fiquei ainda mais espantada quando li no jornal que ninguém sabe quem o construiu nem quando.

O que se poderia fazer daquele lugar enorme que deve ter custado um dinheirão, com uma vista, que apesar de não me lembrar dela, sei que era bem generosa e bonita. Na época achei que o Belvedere ia substituir o Alemão, parada obrigatória naquele tempo, assim como o D’Angelo, antes de existir a Pavelka, que levou nós todos pra lá pra tomar chope com croquetes e chegar em Petrópolis com a cabeça feita pro que desse e viesse. Dessa vez, o que viria mesmo era o Réveillon, com as pessoas de branco ou coloridas de várias cores, ouvindo música nos jardins de seus condomínios e olhando, mais tarde, os fogos soltados por todos os vizinhos e amigos íntimos, passando à meia-noite naquela alegria de mudança de vida ou esperança dela ou até caindo na piscina à meia-noite para se comemorar o nosso próprio futuro num mundo  que não quis acabar.

Andamos também pelo centro iluminado de uma forma incrivelmente delicada e diferente com luzinhas em todas as casas, desenhando os seus contornos, ou subindo pelas árvores da Avenida Koeller, onde, ao fundo, se vê a Catedral.

A pracinha onde eu andava de carrinho de bode quando era pequena, o Palácio de Cristal, tudo fazendo parte da beleza imperial que se impõe à cidade dia e noite.

No caminho temos a entrada da antiga casa “Riverside” do Vicente e da Leda Galliez, cantada por Jorge Veiga na musica “Café Society”, que falava do colunista Ibrahim Sued. “Adoro o Riverside, só pesco em Cabo Frio, decididamente eu sou gente bem...”. Nunca deixo de pensar na música quando passo por lá.

Passamos também pelo “Arroto de Peixe”, apelido que meu pai deu a um monumento estranhíssimo do final dos anos 50, cheio de furos redondos subindo por um fundo de cimento, que marca a entrada da antiga fazenda Samambaia, conhecida pelos seus jardins e por suas festas e casamentos dos parentes dos  proprietários lá realizados.

Até ele, arroto,  continua lá. `Por que só o Belvedere não vingou?

Então voltei pra casa à noite e assisti à queima de fogos naquele cenário extraordinário de Petrópolis, lá de cima, trocando a cidade pela serra e a praia pela piscina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, sexta

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