Fumacê
O Rio de janeiro está infestado de mosquitos. Grandes, pequenos, enormes, ameaçadores, minúsculos. Nos melhores momentos do show do Gil e do Steve Wonder,na televisão, mesmo com ar refrigerado, lá vinham eles zunir nos meus ouvidos inserindo um acompanhamento irritante à harmonia perfeita do show.
Morei em Botafogo, quando era pequena, numa casa grande, com terreno imenso, horta, galinheiro, gramado, um verdadeiro sítio, como eram as casas de antigamente e não me lembro de mosquitos. Obviamente havia um ou outro, mas muito educados, sabiam o lugar deles e ficavam no jardim. Lembro até de bichos mais assustadores. Os ratos, por exemplo. Ratazanas imensas que, volta e meia, corriam casa adentro, fazendo-nos subir nas cadeiras com gritos fininhos de desenho animado. Tinha cobra também. Uma delas, tão grande que papai a matou com um revolver. Também era comum, no verão, vovó colocar uma bacia branca debaixo das lâmpadas do quarto por causa dos bichos de luz que voavam, alvoroçados em volta dos lustres como tietes em torno do ídolo. Mas ao verem o reflexo da luz na água, confundiam-no com um novo herói e voltavam-se para ele, caindo na bacia e morrendo afogados. Será que ainda existem bichos de luz? Ou eles se tornaram tietes de pessoas? Onde andam os bichos de luz, gente? Minha filha disse que eles se transformaram em cupins.
Não sabia. Verdade que logo surgiu o Flit contra insetos, com uma bomba imensa que se acionava através de uma alavanca. Um aparelho anti-diluviano, que era usado mais para baratas do que mosquitos. Mas agora, em nossos dias, onde impera uma total falta de respeito, os mosquitos são de uma audácia inacreditável, fazendo parte do contexto como as crianças e adolescentes atuais e assimilam a variedade de remédios que existem contra eles, absorvendo-os em pequenas doses diárias, o que acaba servindo-lhes como antídoto e deixando-os imunes ao veneno como os infelizes meninos de rua que cada vez fumam mais craque e atacam mais gente. Os mosquitos, agora, agem em grupo, como os bandidos. Enquanto os grandes nos sugam o rosto, os pés, as mãos, e tudo o que estiver descoberto, os pequenos entram dentro das nossas roupas.
No início dessa praga coloquei pastilhas na tomada. Foi uma descoberta. Nenhum mosquito se atrevia a entrar num quarto com pastilha. Saíam de fininho, davam o braço a torcer. O mesmo com os sprays, as espirais; agora não há o que os detenha. Nem a tela na janela, nada. Perderam os limites gargalhando de tudo.
Outro dia me estragaram uma festa no jardim. Morderam a minha bochecha deformando-a como uma plástica mal feita com botox de um lado só, espécie de filme de terror. Matei o monstro com um tapa que me deixou de rosto vermelho alem de inchado.
Ando exausta, porque passo a noite batendo palmas em torno dos mosquitos, aplaudindo a sinfonia em semitons. Qualquer dia amanheço morta pela variedade de sprays, pastilhas e espirais que me intoxicam. Já tive dengue uma vez e me apavora a possibilidade de ter outra. Penso nas crianças da minha família, no lixo espalhado pelas ruas, na sujeira da cidade acumulada de mosquitos e clamo de joelhos por um fumacê como um milagre de São Sebastião em prol do Rio de Janeiro nesse réveillon. Por que não, prefeito? Já que está difícil conter a violência e a guerra, por que não tomar providencias para que ao menos os mosquitos nos deixe em paz, Eduardo?
