Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

Ano Novo mexe com a gente

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Desde pequena, quando morava na Av. Atlântica, que o Ano Novo mexia comigo. À tarde, as empregadas ficavam botando a mesa pra ceia quando a família ficava reunida com amigos de todas as idades. Da minha, da minha irmã, amigos dos meus pais, e durante o dia, a arrumadeira e a copeira limpavam a casa, os objetos, os talheres de prata e faziam uma comida especial, sempre dando uma fugidinha pra olhar a varanda de onde se via a praia também se preparando pro show de Yemanjá, com pessoas colocando pratos, velas, flores e começando a ensaiar músicas especiais de candomblé. Numa dessas, a copeira começou a tremer enlouquecidamente na sacada, fazendo minha mãe entrar em pânico e chamar a outra empregada que explicou que Elisa, a copeira, estava recebendo um santo forte.

Fiquei com medo de Elisa, que tinha virado outra pessoa com uma expressão que não era a dela e que tremia e se sacudia ao som da música lá em baixo, na praia, correndo o perigo de cair do oitavo andar. Ficamos todas em volta dela que finalmente “acordou”, e não entendeu o que ela e nós estávamos fazendo ali, sem se lembrar absolutamente de nada que tinha acontecido . 

Os cachorros também latiam por causa dos fogos que soavam de vez em quando, como um ensaio do que seria à noite.

É claro que tudo era muito mais tranquilo naquele tempo, pois não tinha shows de cantores famosos nem multidões pelas ruas, o que permitia que descessemos até a praia para molhar os pés, dançar a dança dos santos, depois voltar, pôr um disco tocando Nat King Cole, Doris Day, Elvis Presley, Four Aces, ouvindo as músicas Little darling, Mr.Sandman e rocks maravilhosos que tocavam o dia inteiro, mas que no fim do ano ficavam ainda mais especiais, com meus amigos do peito cantando, dançando e observando a praia com disfarçadas paqueras no olhar.

Era uma animação intrínseca, que vinha de dentro de mim, e que já não existe mais, naturalmente, nem tomando champagne. Era uma alegria de viver que saía, naturalmente, pelos poros de todos os adolescentes.

Por isso Ano Novo mexe comigo, e acho que com todo mundo, porque sempre vem à tona essa memória infantil ou adolescente cheia de felicidade extravazante.

Sempre gostei dos réveillons, da Praia de Copacabana, do clima de alegria que se sentia a vida, como se tudo fosse mudar pra melhor daquele dia em diante. Ninguém falava de fim de mundo, mas de um novo começo daquele dia mágico pra melhor.

E apesar do meu pai ter morrido inesperadamente numa alta de açúcar que a diabete lhe enviou de presente, no dia 31 de dezembro, na década de 60, jamais alio, propositalmente, uma data à outra. Acho que fiz esse trato comigo mesma, casualmente, para que possa viver meus réveillons com a felicidade que eles me traziam antes dessa tragédia, que não sei por que, agora, de repente, me deparei com ela de volta á minha cabeça, assim como nos pegou de surpresa, na época. 

Resolvi separar os fatos para que ficar mexida só com a alegria de mais um ano que se anuncia ofusque o pior dia da minha vida, quando o bolo de nozes feito pela cozinheira ficou para sempre em cima da mesa, esperando papai enquanto eu gritava de desespero andando sem rumo pelas ruas de Botafogo perto do cemitério, ouvindo carros passando e pessoas gritando: “Boas festas!” de dentro deles.

Nunca mais tinha ligado uma data que abre portas pra vida com outra que as fecha.

Talvez tenha sido porque vi alguns amigos antigos no Natal e a cabeça tenha aberto o cofre do meu inconsciente onde ela residia, entrando no meu consciente sem me pedir licença, pertinho do Ano Novo, mas de uma forma diferente: talvez seja próprio da sabedoria, que dizem que vem com a idade, o fato é que em vez de tristeza, só senti um amor transbordante que mandei pra papai, enquanto comia bolo de nozes ao som de músicas modernas e igualmente divinas como as que ouvíamos numa vitrola portátil, agora, num DVD.

Tags: ano novo, Artigo, coluna, JB, maria lucia dahl

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