Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

She's leaving home

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Me dá um vazio sempre que minha filha parte... Como se essa não fosse a milésima vez! Já morou no Japão, Paris, Roma, Búzios, Los Angeles  e São Paulo. Não importa a distância, ela parte. E também o meu coração. No começo era por que queria ser adulta, tomar o seu vinho, fumar seu cigarro, se proteger da minha proteção, só dar satisfações aos amigos, deixando-me aqui sem notícias.

“Mamãe, mamãe, não chora, que a vida é assim mesmo eu vou-me embora...”

Pensava que a Gal só cantasse isso pra mim, quando era jovem. Não me via nessa letra como mãe. Meu enfoque era o da liberdade, o da filha, nunca o da perda, da mãe.

 “She´s leaving home”, cantavam os Beatles quando eu ia pra Paris jovem e cheia de sonhos.

Olho o quarto dela revirado, as fotos na parede quando era criança. A filha como meu prolongamento, extensão, parte.

A cumplicidade.

A filha única, só pra mim.

As brigas de adolescente comigo, os sumiços, as afirmações, a insônia, o desespero, o telefone mudo de madrugada. Cobranças, choros, acusações. Morávamos na mesma casa, tínhamos os mesmos amigos, os mesmos gostos.

Amor de mãe. Amor de uma mão só.

O mapa de Geografia, as aulas de Inglês, a prova no dia seguinte.

“Detesto matemática".

“Eu tomo a sua lição".

As aulas de sapateado.

A gargalhada na primeira fila dos teatros nas estreias de minhas peças.

O vinho depois. O sono no restaurante. As cadeiras juntas servindo de cama pra filha.

Mãe e filha vão à luta. Acertam, erram, se magoam, se ferem, se abraçam, se beijam.

Verso, reverso, espelho de si mesmas. Se amam, se odeiam, voltam atrás, no tempo e no espaço.

A partida, a viagem, a busca, o desconhecido.

E lá vai ela de novo, vinte anos depois.

Ajeito os óculos pra ler seu bilhete em cima da mesa.

“Mamãe, mamãe, não chora. Que a vida é assim mesmo. Eu vou-me embora”.

Então espero sentada, mandando e-mails, ligando o celular chorando de medo, saudade e culpa.

- Culpa de quê? - pergunto à  minha analista.

- De ser mãe - responde ela.

 

 

 

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, sexta

Compartilhe:

Tweet

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.