She's leaving home
Me dá um vazio sempre que minha filha parte... Como se essa não fosse a milésima vez! Já morou no Japão, Paris, Roma, Búzios, Los Angeles e São Paulo. Não importa a distância, ela parte. E também o meu coração. No começo era por que queria ser adulta, tomar o seu vinho, fumar seu cigarro, se proteger da minha proteção, só dar satisfações aos amigos, deixando-me aqui sem notícias.
“Mamãe, mamãe, não chora, que a vida é assim mesmo eu vou-me embora...”
Pensava que a Gal só cantasse isso pra mim, quando era jovem. Não me via nessa letra como mãe. Meu enfoque era o da liberdade, o da filha, nunca o da perda, da mãe.
“She´s leaving home”, cantavam os Beatles quando eu ia pra Paris jovem e cheia de sonhos.
Olho o quarto dela revirado, as fotos na parede quando era criança. A filha como meu prolongamento, extensão, parte.
A cumplicidade.
A filha única, só pra mim.
As brigas de adolescente comigo, os sumiços, as afirmações, a insônia, o desespero, o telefone mudo de madrugada. Cobranças, choros, acusações. Morávamos na mesma casa, tínhamos os mesmos amigos, os mesmos gostos.
Amor de mãe. Amor de uma mão só.
O mapa de Geografia, as aulas de Inglês, a prova no dia seguinte.
“Detesto matemática".
“Eu tomo a sua lição".
As aulas de sapateado.
A gargalhada na primeira fila dos teatros nas estreias de minhas peças.
O vinho depois. O sono no restaurante. As cadeiras juntas servindo de cama pra filha.
Mãe e filha vão à luta. Acertam, erram, se magoam, se ferem, se abraçam, se beijam.
Verso, reverso, espelho de si mesmas. Se amam, se odeiam, voltam atrás, no tempo e no espaço.
A partida, a viagem, a busca, o desconhecido.
E lá vai ela de novo, vinte anos depois.
Ajeito os óculos pra ler seu bilhete em cima da mesa.
“Mamãe, mamãe, não chora. Que a vida é assim mesmo. Eu vou-me embora”.
Então espero sentada, mandando e-mails, ligando o celular chorando de medo, saudade e culpa.
- Culpa de quê? - pergunto à minha analista.
- De ser mãe - responde ela.
