Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

Televisão e depressão

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Resisti bastante a entrar no Facebook, por causa do Orkut, onde houve um desentendimento com algumas pessoas que nunca vi na vida. Um super mal-entendido que me fez  sumir da internet (só a usava pra trabalhar e passar e receber e-mails). Mas aí, comecei a achar tudo chato e pensei: quem sabe o Facebook não me traz alguns amigos antigos, outros novos, e me tira dessa depressãozinha chata que luta comigo quando acordo, de manhã, mas até hoje, não a deixei me vencer e saio da cama de repente pra que ela não perceba e não consiga me acompanhar imediatamente. 

O problema é que quase sempre ela vence e me segue pela rua conscientizando o meu inconsciente, de uma forma pessimista, e me presenteando com uma ligeira síndrome do pânico que se converte na tal depressão, a doença da moda de um tempo onde o mundo acaba, não acaba, as pessoas somem, muita gente desaparece e a violência toma conta do planeta por falta total de diálogo.

Então comecei a ver quem estava me convidando pro face e resolvi responder. Comecei a me divertir imediatamente com uma prima-íntima, que só conheço por telefone e que conta sempre a vida da nossa família.

Começamos por tia Margot, casada com um primo de meu pai e acho que também do pai dela.

Sabíamos a mesma história, que ouvia quando criança, que o primo de papai não ia com a cara da Betty, a melhor amiga de sua mulher, Margot. Passava todos os almoços em família implicando com ela, sem a menor razão, coisa que muito o distraía.

Um dia, esse primo de nossos pais adoeceu, foi internado no hospital, e seu último pedido foi ver a Betty. Tia Margot estranhou mas, católica que era, pensou que talvez seu marido a tivesse chamado para lhe pedir desculpas por todas as suas implicâncias, e chamou Betty, que chegou imediatamente.

Nosso primo, então, pediu que ela chegasse bem perto dele, por que não estava escutando direito.

Betty chegava cada vez mais próximo, mas ele insistia que ela se aproximasse cada vez mais, o que foi feito.

E quando Betty chegou no ponto em que ele queria, nosso primo deu-lhe uma mordida no nariz, que era grande.

Betty gritou e tia Margot foi correndo socorrê-la, enquanto nosso tio olhava pro teto, contente com a vingança.

- Mas vingança de quê, Euzebio, a Betty nunca fez mal a ninguém!

- Fez sim, Margot - respondeu Euzébio. 

- Ela é muito feia!

Essas talvez tenham sido suas últimas palavras.

Então me diverti no face, falando com amigos que amo e que a vida separou, conheci outras pessoas e, à noite, fui a um jantar comemorativo de esportistas de todas as idades que já ganharam todos os troféus, dos quais meu namorado faz parte.

Então uma senhora disse a uma outra, que estava se sentindo muito feia, pois tinha emagrecido muito e seu nariz estava parecendo maior.

Foi quando sua netinha de cinco anos abraçou-a e disse a ela depois de um beijinho:

-Vó, você não está feia, só está velha!

Fiquei impressionada com a coincidência de casos tão parecidos no mesmo dia. Então, longe da depressão, que pelo que percebi gosta muito mais de TV que internet, dei boas gargalhadas com ela, que converteu meu passado em alegria em vez de transformá-lo  em síndrome do pânico e depressão.

 

 

 

 

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, sexta

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