Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

O fundo musical da minha vida

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Ontem fui ver o filme sobre o Gonzagão e o Gonzaguinha e fiquei muito tocada. Não sei qual dos dois me emociona mais. O Gonzagão me levou à varanda da minha infância, onde minha babá ligava o rádio e só dava Gonzagão, que eu amava, e sabia todas as letras de cor, o que me fez  pagar mico no cinema cheio, na Barra, não resistindo a cantar baixinho, junto com ele: “É dezessete e setecentos”. E eu respondia: “É dezesseis só!”. 

E por aí ia, até meu namorado dizer que eu estava dando um vexame. Então parei de cantar, mas o que eu queria mesmo é que o cinema todo cantasse comigo como num programa de auditório, ressuscitando o Gonzagão, e sairmos todos cantando e dançando “Dezessete e setecentos”.

Então, depois do Gonzagão me levar pela mão, “à minha infância querida que os anos não trazem mais”, deixando-me completamente comovida com sua música cheia de humor e um ritmo brasileiro fantástico, vem o Gonzaguinha, filho, me pega pelo pé e me leva à minha juventude, nos Baixos da vida, às praias, às festas e ao Canecão, onde ia ver minhas amigas “Frenéticas” (que também mereciam um filme), cuja uma delas namorava o cantor e tem uma filha dele. Cheguei em casa e liguei pra ela pra lembrar daquela época fantástica. Sandra disse que já tinha visto duas vezes o filme com a filha e que não paravam de chorar.

Então ligo a televisão cheia de assaltos, incêndios, tsunamis, vulcões, secas, chuvas e alagamentos, além dos roubos com arma na cabeça da pessoa, acompanhados da palavra ”perdeu!”, e o dos políticos onde tudo é camuflado, ninguém fala nada, mas que perdemos muito mais, pagando mansões espetaculares, carros e aviões aos seus praticantes. 

Aí a TV começou a falar do fim do mundo, misturando religião e Física, com apresentações de professores dizendo que a Terra vai se chocar com um planeta muito maior do que ela, que a água e a luz vão acabar e tudo ficará às escuras e sem tecnologia, o que seria mais conveniente aos mensaleiros escondidos. Mas e aí? Roubar pra quê? Viajar pra onde? Comprar o quê?

À essa altura desligo a TV, pensando nos poucos dias que ainda tenho de vida até o fim do mundo, quando uma amiga me liga do seu celular (que tento aproveitar enquanto existe), dizendo que está num engarrafamento no carro, ouvindo Beatles junto com outros engarrafados e que acabaram saindo de seus carros e dançando todos juntos na rua. Quem sabe seja a solução pros engarrafamentos? Ouvir Beatles e dançar? Mais ou menos o que eu queria fazer no filme dos Gonzagas, cantando as suas músicas junto com a plateia?

 Adoro grupos, pessoas que se entrosam fitando um mesmo objetivo e se dando as mãos enquanto podem, antes de chegar a idade ou o fim do mundo, levando-as à música de Dolores Duran: ...” Aí a solidão vai acabar comigo...!”

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, sexta

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