Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

A década das Bossas

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Fui ver o filme do Nelson Pereira dos Santos sobre o Tom Jobim. Quem pode resistir a essa dupla ? Amo  o Nelson e seus filmes, amo o Tom e suas músicas, a época transformadora do Cinema Novo, a Bossa Nova e toda  aquela fase riquíssima, culturalmente, que se expandia por todas as artes, abrindo a cabeça das pessoas com sua nova maneira de ver  e viver a vida, com uma sofisticação inata que se dirigia a um Brasil visto de uma outra forma, como nos filmes do Nelson, de Glauber, etc, e compositores extraordinários como o Tom.

Era uma alegria espalhada pela Praia do Arpoador, por exemplo, onde Arduino Colasanti  surfava a sua beleza enquanto tomávamos sol reunidos em grupos que se compunham espontaneamente em toda a parte, bastava chegar um membro dele, e os outros iam se aconchegando, sem ninguém combinar.

Isso acontecia em toda a parte: no Restaurante Antonio´s, com o Roniquito falando barbaridades hilárias, Tarso de Castro e o próprio Tom, tudo na mesma mesa fazendo-nos morrer de rir. Que época maravilhosa que veio depois da “Fossa” pra nos botar pra cima e ler tudo depois no Pasquim.

Ninguém ficava nem se sentia mais sozinho como nas músicas de Maysa e Dolores Duran, que eram lindas mas nos deixavam aos prantos, enquanto a Bossa acentuava o lado feliz e amoroso da vida.

Lembro-me do Antonio Maria, entrevistando a senadora Sandra Cavalcanti, na televisão, que era lacerdista e tinha o apelido de “mal amada”. Então ele perguntou:

- A senhora pretende continuar a ser mal amada, dona Sandra?

E ela respondeu:

- Eu posso ser mal amada, senhor Antonio Maria, mas quem escreveu a letra de “Ninguém me ama, ninguém me quer", foi o senhor.

Realmente, não ficávamos sozinhos. As pessoas se integravam nas areias da praia, nos chopes dos bares de Ipanema com o melhor fundo musical acompanhando os roteiros das nossas vidas cheias de acontecimentos surpreendentes.

Ninguém era deslumbrado com celebridades que se incluíam, tranquilamente, em nossas vidas, como, por exemplo, o Jack Nicholson, que se hospedou na minha casa que eu tinha alugado pro Rodrigo Argolo, quando peguei um exílio de carona com meu marido, na época, e fomos parar em Paris.

Frank Sinatra ligava pro bar onde estávamos pra falar com o Tom.

Tudo era surpreendente nessa época, como os filmes do Cinema Novo fazendo-nos descobrir o Nordeste verdadeiro que pude conhecer quando o Walter lima Jr me chamou pra participar, como atriz, do filme Menino de Engenho, no interior da  Paraíba, onde fiquei seis meses, num Brasil absolutamente desconhecido e fascinante.

Era uma época de ouro, onde depois da Bossa Nova se inventou a Tropicália, com os gênios baianos Caetano, Gil, Bethânia, Gal, que deslumbravam a todos com o tom de suas vozes, letras inteligentes e a beleza da música.

A única coisa que não entendo quando se fala do Tom Jobim é por que não mostram o maestro Edson Frederico, que trabalhou com ele no show do Canecão, com Vinícius, Miúcha, uma banda de meninas lindas e talentosas, entre elas, a Ana, que casou com o Tom.

Vi  esse espetáculo milhares de vezes e cada uma delas descobria mais aspectos dissonantes dele. A vida era dissonante.

Edson Frederico tinha um programa onde ele era maestro na Globo, e era um ótimo pianista, que começou cedo fazendo vários shows e morreu cedo também, mas deixou uma biografia que precisa vir à tona e não ficar na gaveta. 

Foi um tempo inesquecível de mudanças que não volta mais. Sei que cada um pensa isso da sua própria juventude, tempo inesquecível da vida de cada um, mas ser jovem nessa época dissonante foi uma bênção que a minha geração recebeu para se expandir através da chatice que nos traz a idade, com seu dejà vu sem roteiro inesperado ou fundo musical deslumbrante, mas que nos deu a chance e a dádiva abençoada de se ter como mudar de estação.

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, terça

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