As bruxas de Avalon
Brasília não tem esquinas. Isso causava graves problemas à minha amiga, que tinha que pegar o carro e ir para outra cidade fazer despachos. E por falta de encruzilhadas ela se mudou pra Nova York, depois Haia, construindo por lá uma longa e sólida carreira de bruxa, agora, organizada em computadores, iPads e tudo o que há de mais moderno, que ela trouxe na bagagem de volta a Brasília onde pretende ser bruxa profissional. Fui visitá-la, sentindo-me perdida nessas distâncias enormes, sem carro, dentro desse grande navio do qual não faço parte das festas do comandante.
Mergulho na sua biblioteca cabalística, enquanto ela se esmera no meu mapa, falando da lentidão inexorável de Plutão.
- É o planeta da Phoenix. Do fim e renascimento das coisas. Mas mesmo que se saiba que a vida voltará revigorada, de alguma forma, esse planeta é sempre acompanhado de dor. Quando você sentir um arrepio na nuca, é ele.
O arrepio me dá só com a descrição, enquanto o computador, paciente, vai desenhando as linhas vermelhas e azuis do meu destino em relação aos astros, ao Brasil, à Terra.
- Traços familiares em Paris e no Nordeste - diz minha amiga lendo o meu mapa.
- Prazer no Texas e no Caribe, amor em Roma, renascimento e mudanças no Rio.
Ficamos falando do nosso passado em Avalon, bruxas que somos, quando surge, forte, no meu mapa, novamente, Plutão, relacionado com a minha mãe, que vira tema principal da nossa conversa. Me pergunto em que parte do astral ela se esconde. Se está bem, se está mal, e aonde? E num sincronismo perfeito, o marido holandês de minha amiga, cansado de nos ouvir falar português, tira o CD do Paulinho da Viola, e, sem razão aparente, coloca a música preferida de minha mãe que eu não ouvia desde a infância. E numa resposta imediata, um Frank Sinatra muito antigo, se deleita cantando:
“Oh what a beautiful morning
Oh, what a beautiful day
I have a wonderful feeling
Everything is going in my way…”
Não sei se por causa de Plutão, sinto arrepiar meus cabelos na nuca e me derreto em lágrimas pra desconsolo do marido da minha amiga, culpado com a situação.
Então saímos pra jantar, os três, pelo céu estrelado de Brasília, fazendo acrobacias, montados em nossas vassouras, num reencontro feliz, dando adeus aos profetas, que nos olham, cúmplices, lá de baixo, diante da Catedral.
