Viúva processa Walt Disney
Minha amiga está apaixonada por um cara quase vinte anos mais moço do que ela. Acho que esse foi o único item que não nos tocamos na década de 60, 70, quando a mulher passou a existir, trabalhando, mandando, se politizando, muitas sendo presas e torturadas por que começaram a ter opinião própria, em vez de serem donas de casa e mães de família.
Estas foram as décadas que acabaram com todos os preconceitos. Pelo menos, fizemos por onde e mudamos as regras do jogo. Se alguma mulher quis continuar do jeito que era tratada antes, era uma escolha dela, à que, obviamente, dávamos força, pois todos tinham o direito à liberdade, como os gays, por exemplo, que também começaram a se impor do seu jeito influenciados por peças maravilhosas dos Dzi Croquettes.
Mas uma coisa ninguém levou em conta, pois talvez fossemos muito jovens e ainda não pensássemos nessa possibilidade: a das mulheres terem que ser mais moças que os namorados, ou maridos. Entre a nossa turma, na época, isso não existia, pois tive mil namorados mais jovens do que eu, assim como todo mundo, pois, fisicamente, ainda não havia diferença.
Mas tudo mudou outra vez, e voltou aquela caretice de que mulher tem que ser mais moça. Esse preconceito começou a pegar de novo, como está fazendo com essa amiga, muito moderna, muito descolada, mas falou em paixão, pronto, vira Penélope esperando Ulisses, que está lá no meio do mar, numa boa, de celular desligado, babando pela Pequena Sereia.
Minha amiga está se sentindo muito insegura. Se acha gorda, se acha velha, se acha feia, compara-se às gatinhas de 30 anos, compra roupinhas de Barbie. Eu fico pasma.
Passei a noite lhe dizendo que se o cara está na dela, não é por que quer uma Giselle Bünchen. Se quer ficar com ela, de alguma coisa ele gosta.
Ninguém teria uma conversa dessas com um cinquentão careca e barrigudo, claro. Gostar de menininhas faz parte, é inerente aos homens. Não se questionam se são algum Johnny Depp, um Brad Pitt nem saem comprando roupinhas de surf. Ficamos combinados assim, né? Quem foi que combinou não se sabe. Se foi o inconsciente coletivo, acho que ele não aprendeu nada nesses últimos milênios e vai ter que voltar ainda por muitas encarnações. Mas por que, gente, que a minha geração, que lutou contra todos os preconceitos, que inventou o politicamente correto, que dá força para as minorias, só tem preconceito com a velhice? Das mulheres, é claro. As velhas estão sujeitas a um verdadeiro campo de concentração. Não podem se misturar com os mais jovens. Quer dizer, os velhos podem. Podem até ir pras raves e dançar até de manhã correndo o risco de um enfarte. Mas as velhas? Digo, todas as mulheres que passaram dos quarenta (!), que fiquem na sua cadeira de balanço como Dona Benta, no sítio do Picapau Amarelo.
Mas, voltando à minha amiga apaixonada, ela parecia uma Doris Day, e só faltava o dry Martini esperando o bofe tatuado. Não deixou o celular em paz um minuto e telefonava pra casa pra conferir os recados do telefone fixo, a cada segundo, roía as unhas e andava de um lado pro outro, numa ansiedade adolescente de quem espera o Príncipe Encantado. Mas que diabo de príncipe é esse que não se aposenta nunca? Que raio de ícone é esse que não cai do cavalo? E se, por acaso isso acontecer, e o príncipe virar sapo, lá vem o barulho do galope do substituto. Mas também, que mulheres são essas que não olham pros homens a pé, só a cavalo, e ainda por cima, branco?
- Logo você, que foi hippie e maconheira nos anos rebeldes, que podia aproveitar a vida com um companheiro legal, ex-doido feito a gente, ainda me vem com essa lenga-lenga de conto de fadas? - pergunto à minha amiga.
- Enfiaram isso na cabeça da gente - respondeu ela.
- Quem foi que enfiou? - perguntei.
- Hollywood, ora! A Metro, a Paramount, a Columbia, a Fox... Não foi a ditadura que nos torturou somente. Hollywood continua torturando. Foi o Walt Disney que destruiu a nossa geração! Pois tá na hora de mandar a conta pra ele - gritou ela.
- Vou processá-lo!
- Não foi o Walt Disney que inventou o Príncipe Encantado, menina! - grito com ela também.
- O Príncipe, propriamente dito, é medieval! Na Idade Média já tinha príncipe! Acorda.
-Ter, tinha - concordou minha amiga.
- Mas foi o Walt Disney que o divulgou, como a coca-cola, o Marlboro, etc... Não tinha marketing de príncipe, entendeu? Vou processar Hollywood por propaganda enganosa. Agora proibiram o cigarro, alegando que faz mal à saúde. E Príncipe, não faz?
- Pensa bem. Acho que você vai perder. Eles têm bons advogados. Vão provar que bofe não é príncipe e que a louca é você. Não existe príncipe nenhum, meu amor, só sapo!
Então o celular de minha amiga toca, ela vê o número e diz, baixinho, completamente apaixonada, caindo no sofá com um sorriso enlouquecido nos lábios:
- É ele, o sapo...
