Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

A Princesinha do Mar

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Da janela de vidro da cobertura do segundo andar, em Copacabana, vejo se formar um bando de meninos na rua,  abrigados por cobertores que misturam suas cores berrantes ao estardalhaço infantil de animais selvagens.

“Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta que, imprudente, na gávea tripudia?”

Na porta dos hotéis cinco estrelas eles aguardam a comida que exigem dos gerentes em troca da não agressão aos turistas, numa trégua de Zumbi dos Palmares desperdiçados em assaltos individuais e conflitos com gangues rivais na luta pela sobrevivência. Enxotados, escorraçados e terminando exterminados – a versão , o saldo moderno do Navio Negreiros, do Negrinho do Pastoreio, o que sobrou da escravidão. Engraxate, flanelinha, moleque, vendedor de limão. Trocando em miúdos, o pivete moderno cheirando craque. O troco. “Me dá um trocado?”. A inversão de papéis. Cantavas? Pois dance agora... Sem código, sem lei, sem diálogo, filhos de fraudes, licitações, falcatruas, mensalões, trocam o roubo do seu futuro pela morte de presente, sem limites de criança armada de verdade, por falta de revólver de brinquedo. Escadinhas de grandes bandidos nesse país sem mocinhos, onde todos são maninhos encadeados em progressivo arrastão.

Nas barracas dos camelôs, ao fundo lantejoulas refletem os ecos de antigos carnavais, e no calçadão preto e branco os gringos passeiam com as morenas gostosas.

Um travesti patina na Atlântica atrapalhando o trânsito, aberto por ele, a quem quiser dar pinta no pedaço.

Um homenzarrão despido de Yemanjá colocou seios e pestanas postiças combinando com a cabeleira azul. Um outro vestiu-se de cigana, e sentando-se nos colos dos turistas dá gritinhos histéricos e sorrisos insinuantes ao ler suas mãos: “vai ter um caso inesquecível no Brasil!...”

Uma  morena de short tenta provar que é mulher exibindo a largura de seus quadris que rebolam, freneticamente, ao som da cuíca tocada por um homem negro de camisa de cetim.

Uma névoa envolve a praia transformando-a em Londres e o ar refrigerado ao máximo contribui para o clima de suspense, enquanto os meninos de rua, agora, cheiram cola .

A campainha da cozinha avisa que chegou a pizza e as garrafas de vinho.

O dono da casa fecha as janelas por causa do barulho da rua e nós tomamos vinho  e assistimos a Bibi Ferreira, na TV, cantar Hymne à lámour ...

Será que o amor é assim?

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, sexcta

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