O pulo da gata
A gata branca de uma amiga da minha filha, que se chama Neve, e está passando uns dias aqui em casa enquanto a dona foi pra Europa, me fez lembrar de outra gata, a Varada, que morava no Teatro Princesa Izabel, em Copacabana, quando eu atuava na peça O Avarento, numa volta aos palcos de enorme sucesso do ator Procópio Ferreira, vinte anos ausente. A plateia delirava com ele, enquanto nós, atores, também não conseguíamos prender o riso com seus apartes nas frases de Molière.
Quando os atores chegavam ao teatro, a gata Varada já estava na plateia enrolada na poltrona 7, da fila D, o que fazia o faxineiro jogar, invariavelmente no gato ou nos múltiplos de sete do jogo do bicho, e só saía quando o público entrava, fazendo hora no Cervantes, um bar da moda, perto do teatro que fechava tarde, onde saboreava restos de atum que sobravam das saladas com batatas dos clientes.
Foi o garçom nordestino do bar que deu o nome da gata de Varada, por estar sempre faminta, o que nos contou quando foi assistir à peça, entrando pela primeira vez num teatro.
- Por que é que se diz que a peça é de Moliére, se tem muito mais homem? Perguntou o garçom na saída da peça.
Um dia, Varada apareceu grávida. O que demonstrava misturando-se às nossas pernas numa necessidade compulsiva de carinho. Passou então a habitar uma gaveta do armário do camarim, e deixou de frequentar a noite, já que não precisava sair com a chegada do público, pois os atores mimavam-na com sardinhas trazidas de casa e croquetes feitos pela camareira. Quando chegou perto do nascimento dos gatinhos, a camareira levou-a pro seu conjugado na Prado Júnior.
- Não dá pra ter filhos no camarim de vocês - disse ela.
E a gata teve quatro gatinhos varados de fome feito a mãe, que não davam trégua aos seus peitos.
Mas um dia a camareira se queixou dos gatos que atrapalhavam seu romance com o gatão por quem ela era apaixonada.
Varada então mudou-se, com a sua prole, pra casa de um ator da peça, em Copacabana.
- Espantará os ratos do jardim - disse ele.
Foi quando o faxineiro do teatro ganhou no bicho por ter jogado no cão.
- Por quê cachorro, Seu Avelino? - perguntei.
- Por que o rato foge do gato, que é perseguido pelo cão. Segui o raciocínio inverso e não deu outra: cachorro na cabeça!
Varada se divertia nos jardins suspensos de Copacabana, caçando passarinhos e camundongos, enquanto seus filhotes se perdiam no Beco da Fome, comendo kibe e repetindo a antiga boemia da mãe.
Até que os estudantes, no Rio, sequestraram o embaixador americano. A polícia fechou o cerco aos militantes políticos e, aconselhado por seu jovem advogado, o casal que adotou os gatos em Copacabana foi um dos últimos a deixar o aeroporto antes de apagarem a luz do país.
Varada voltou pro teatro largando os seus filhos em Copacabana onde eles dormiam, felizes, na poltrona de veludo, alheios ao terrível blecaute.
