Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

As coincidências continuam

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Ligo a TV num dos telecines, como sempre, depois dos jornais, e dou com um filme canadense chamado  “Cegueira”, dirigido pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles e baseado no livro de Saramago “Ensaio sobre a cegueira”.

O filme fala de um  homem rico que tem uma casa com uma decoração de extremo bom gosto, numa cidade sem nome que tem tudo a ver com São Paulo, embora os cenários variem com a evolução do filme, focalizando bairros de outras cidades equivalentes, numa mistura de gostos parecidos, ou seja, bairros de classe alta.

O homem está em sua casa, olhando a vista pela janela, quando, de repente, começa a perder a visão e vai, aos poucos, ficando cego, até não enxergar mais absolutamente nada. Começa a ficar desesperado, sem entender a causa de uma doença repentina, quando sua mulher chega da rua e,  assustada, leva-o para o hospital, onde o colocam num galpão fechado, perto de uma sala onde ficam os médicos que quase nunca aparecem.

O homem vai piorando enquanto a mulher o ajuda, quando, de repente, chega mais uma pessoa com a mesma síndrome dele, e mais um e mais outro, até aparecerem médicos, muito rapidamente, dizendo que essa crise generalizada vem da poluição da cidade.

Quase todos os que chegam são pessoas ricas e bem vestidas. A única mulher que pertence a uma classe um pouco mais pobre e que não pegou a cegueira é a esposa do homem que estava na janela e que foi o primeiro a chegar. Os outros cegos também parecem de alta classe, bem vestidos e falando a mesma linguagem.

Por ser a única saudável, a mulher que não ficou cega começa a cuidar de todos, e não só do marido, por falta de atendimento no hospital.

Aos poucos o galpão vai se enchendo de mais cegos, e os médicos sempre colocando a culpa na poluição. Vai-se formando uma afinidade intensa entre os doentes, uma familiaridade distribuída entre todos, que por causa da falta de visão não se dão mais ao trabalho de se arrumar ou se vestir.

Daí começa uma familiaridade entre os cegos  que faz despontar o sexo de quase todos eles,  que não reagem a ele e acabam todos transando sem saber com quem.

Imagino que o filme fale da cegueira generalizada, como de regras estabelecidas que ninguém contesta, e que vão passando de geração em geração, como preconceito, convivência social, racismo, isto é, uma cegueira da consciência, que só tem olhos pra si mesma, enxergando o próximo, apenas pra levar vantagens  e ganhar dinheiro .

Então, a cegueira desse grupo foi o pretexto pra se liberar o sexo, já que ninguém está vendo, enfim, um abrir de portas de armários que há séculos se trancavam, transformando o mundo numa eterna mentira ou poluição.

Fiquei pensando no filme, no mundo, na consciência, na educação, e no dia seguinte ia viajar para Petrópolis, quando tive uma dor no olho direito que parecia uma agulha fisgando-o e achei que ia ficar cega, assim, sem mais nem menos, como as pessoas do filme.

Meu companheiro me levou à emergência do Hospital Silvestre, como a esposa do primeiro cego e, onde ao contrário do filme, fui super bem atendida, e soube que estava com um corte na córnea, espécie de herpes dentro do olho, ou uma grande infecção.

Fiquei pensando na simbologia do filme e se ela se aplicava ao meu modo de ser e achei-a totalmente contrário a tudo o que sou, pois não sou preconceituosa, não sou racista nem ajo de uma forma disfarçada e falsa, acho eu...

E agora, José?

Tomar antibióticos e ficar sete dias sem televisão, cinema ou computador, pensando na minha  vida e  nas  suas possíveis  poluições escondidas...

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, sexta

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