O naufrágio
O navio chamava-se Andes e era inglês. Viajávamos pra Europa nele, já que meu pai não entrava em avião desde que uma cartomante afirmou que ele morreria num desastre aéreo.
Minha irmã e eu éramos crianças e adorávamos o navio, apesar da comida insossa. Corríamos pelo deck, brincávamos com outras crianças, falávamos inglês e nos sentíamos importantes enquanto nossos pais enjoavam, trancados no camarote. Vovó, que tinha ido pra cuidar da gente, tomava chá com limão e um bolo sem graça que chamávamos de bolo besta, na mesa do comandante.
À noite, assistíamos a shows. Americanos, Marlene e Michael, deslizavam pelo salão ao som de tangos e boleros e tiravam homens e mulheres para dançar com eles. Marlene usava um vestido justo, vermelho, e Michael, um smoking. Mamãe tinha ciúmes de Marlene quando enlaçava papai ao som de La Cumparsita. Mamãe fazia cena, papai tomava uísque, antes de correr, enjoado, pro camarote, e nós jogávamos no caça-níqueis esperando a chuva de moedas que víamos cair de dentro dele fazendo a festa de alguns felizes jogadores. Um dia, a amiga que vovó fez no salão de chá, e que também era brasileira, nos deixou umas moedas pra jogar por ela e foi dormir. Não conseguimos esperar para entregar-lhe o monte de níqueis que caiu, quase imediatamente em nossas mãos. Batemos em sua porta, excitadas, e sem esperar, entramos correndo ao percebermos que ela estava entreaberta. Qual não foi o nosso espanto ao vê-la deitada, a boca murcha de velhinha ao lado da dentadura que ria sozinha, sem dono, mergulhada num copo d´água. Ficamos ambas estateladas com o dinheiro na mão, o que só o fizemos no dia seguinte, durante a Passagem do Equador, quando a amiga de vovó recuperou sua imagem jovial e alegria fantasiada de Sarah Bernard com um vestido de cetim preto e luvas prateadas.
Enamorei-me perdidamente por um menino inglês, chamado Thimothy que, aproveitando-se de minha paixão completamente platônica quando eu olhava pra ele jogando cricket no convés, me pediu um beijo na escada do restaurante, o que me fez sair correndo pelo navio, o coração aos saltos, até a segunda classe cheia de italianos que gesticulavam e gritavam me oferecendo pão com salame.
Passei a fugir de Thimoty, que me chamou de pirralha depois de eu ter pago aquele mico. Contestei heroicamente afirmando que eu era uma adulta, ao que ele, ainda ofendido, respondeu: “Você não é, nem, nem nunca vai foi!”
Enquanto isso, minha irmã dançava com os oficiais debochando de um português que lhe dizia ao pé do ouvido: “Apetece-me beija-la...”
Papai e mamãe se entediavam, minha irmã e eu aprendíamos a jogar King no baralho enquanto vovó lia Eça de Queiroz. Mamãe achou tudo chato e foi se deitar.
Então o navio começou a jogar. O livro do Eça caiu no chão e ficou dançando pra lá e pra cá. Minha irmã e eu nos seguramos na máquina do caça-níqueis.
O navio começou a apitar. Era tarde da noite e um leve pânico educado tomou conta dos tripulantes ingleses. O navio jogava cada vez mais forte. As pessoas se aglomeravam no salão. Da porta de vidro dava pra ver as ondas enormes lá fora o que talvez, hoje em dia, fosse chamado de tsunami. Papai, apavorado, resolveu chamar mamãe no quarto. Descemos com ele, agarradas ao corrimão.
Encontramos mamãe, no banheiro, enjoada, passando mal. Nem desconfiava do que se passava ao seu redor. Papai chamou-a educadamente: “Querida, você tem que subir conosco. Ela agarrava-se à pia e respondia: “De jeito nenhum!” Foi quando papai abriu o jogo e confessou que o navio estava afundando. Então ela respondeu, limpando o suor da testa: “Vai lá em cima ver como as senhoras estão vestidas pro naufrágio e volta aqui pra me contar.”
