Trânsito
Minha empregada está comigo há uns trinta anos, pelo menos. Não me lembro de nenhuma moça que trabalhasse conosco ter ido embora, desde a casa da minha mãe. E isso só acontecia quando morriam, o que me deixava num estado inconsolável, como se fossem membros da minha família.
Agora a minha querida Maria, que está com a gente desde que a minha filha era pequena, deu pra chegar tarde e eu fico insegura pensando se ela virá ou não. Então, ontem, tivemos um papo sério, e disse a ela que compro o que ela me pede, tipo comida, material de limpeza, etc, vou fazer o meu trabalho e deixo o de casa pra ela e que, portanto, ela poderia, pelo menos, me avisar se vai ou não chegar atrasada ou se vem ou não vem. Então ela contou coisas tenebrosas que acontecem naquele trem que ela pega em Caxias, que é tão lotado que um empregado tem que empurrar as pessoas pra dentro da porta do vagão. Assisti essa mesma cena pela televisão, que mostrou pessoas sendo empurradas pela porta do metrô, no Japão, e fiquei horrorizada, sem imaginar que isso estaria acontecendo também aqui no Brasil, com os trens.
Maria me disse, também, que às vezes o trem passa direto, sem parar, por que não há nenhum lugar disponível, nem de pé, e os pretensos passageiros têm que esperar mais uma ou duas horas por um outro trem que, por acaso, consiga parar enquanto o povo se submete a dores terríveis nas pernas e veias. Enfim, ela me disse que estava louca pra falar comigo sobre isso para que eu pudesse colocar esse absurdo no jornal.
Por que é que o povo, aqui no Brasil, tem que sofrer tanto? Se a classe média, hoje em dia, fica trancada no trânsito que para completamente, às vezes por horas, e nos deixa, sim, dentro de um carro confortável, mas correndo riscos, como o de chegar atrasado num lugar importante, passar mal de calor ou de frio, e o pior de tudo, que é o de ser assaltado ou participar de acidentes graves, como batidas de caminhão que carregam o dobro da mercadoria, que, penso eu, seria permitido.
Antigamente tinha hora pro trânsito ficar mais devagar. Parar, eu não me lembro. Era a “hora do rush” que ia, em geral, das seis às oito da noite por causa dos carros voltando do centro da cidade, onde se costumava trabalhar. Mas era só nesse horário, o que fazia meu pai, que trabalhava no seu Banco, na Rua Buenos Aires, fazer hora, bebendo uísque no bar Lidador com os amigos e chegar em casa sempre com a mesma frase: “Nossa! O trânsito hoje estava um horror!“, o que ninguém mais acreditava, pois o trânsito ficava pior nesse horário do rush, mas o Rio tinha uma percentagem pequena de carros em comparação a hoje, de motoristas e de gente que tomava uísque no Lidador.
Agora quase não se bebe mais uísque, os bares chegam até a ficar vazios, como o dos clubes, por exemplo, que tinham música e ficavam lotados, como o do Country, com o Bené Nunes, ao piano, e a Martha Rocha sentada ao seu lado. Eu ainda não podia entrar no bar, mas via tudo sob o pretexto de falar com meu pai.
Será que os bares fecharam ou esvaziaram por que ninguém mais toma uísque? Acho que depois que quase todo mundo passou a tomar vinho, abandonaram os bares, indo pras varandas abertas. Fase difícil pros pianistas que ficam sem trabalho e chata pra gente, quando adulto, que costumava encontrar a turma de amigos no bar.
Também íamos ver os artistas internacionais cantarem no clube, sem pagar um tostão, assim como Nat King Cole, Sarah Vaughan, Marlene Dietriech e Domenico Modugno, cantando Volare!
O público deles cabia no bar do Country, hoje em dia, um cantor muito menos famoso enche o Maracanã, como os passageiros enchem os trens da Central.
Senhores candidatos à Prefeitura de Caxias, Alexandre Cardoso e Washington Reis, pensem um pouco nas pessoas que moram aí e trabalham na zona sul, como a maioria delas, e vejam se podem fazer algum milagre pra essa população imensa e sofredora, além dos hospitais, que assisti ontem na TV, que são talvez os piores do Rio.
