Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

A árvore

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Meu ex-genro se mudou de um gostoso apartamento na Rua Sacopã. Sempre gostei daquela rua, mas este nome, no fundo, me remetia ao famoso “Crime da Sacopã” que me chocou muito quando eu era pequena e os jornais trouxeram todos os detalhes do fato, com muitas personagens e um script surpreendente onde cada dia aparecia uma pessoa nova e famosa que fazia parte da novela.

Era estarrecedor, e acho, que todo mundo que passou a vista por essa história ainda se lembra dela inteira ou de alguns pedaços, que renderam até um filme como: “O Tenente Bandeira não matou”. Não sei, não quero saber e faço questão de esquecer esse crime hediondo que, por tanto tempo, ficou relacionado à rua que é uma delícia, cheia de plantas, flores e vista da Lagoa. Quando já tinha esquecido tudo de ruim ligado ao seu nome e só prestava atenção na paisagem, meu ex-genro resolveu se mudar de lá.

Então, seu filho, (meu neto mais velho), me falou de uma árvore que estava na varanda e que, na certa, seria vendida junto com apartamento. Perguntou por que eu não a trazia pra minha casa, já que ele sabe que adoro plantas. Então comecei uma busca, em Botafogo, pra saber quem poderia trazê-la pra cá. Pediram todos muito caro pra transportá-la e respondi que por aquele preço eu poderia comprar outra árvore, o que meu neto não queria, por que naquela estava plantada a história da sua avó que morreu há pouco tempo, mas que cuidou da planta até que a morte as separasse. 

Então conheci um rapaz que trabalha com burros sem rabo, que me disse que poderia trazê-la, se ela coubesse no seu carrinho de mão. E depois de ter cobrado muito, mas muito pouco, eu disse que lhe daria o dobro se ele fosse até a Lagoa comigo, medir e experimentar todas as maneiras de fazê-la caber no seu carrinho.

Na manhã seguinte estávamos lá com o rapaz do burro sem rabo, eu e meu namorado, sendo apresentados á árvore, por que até aquele momento só a conhecíamos de ouvir falar. Mas logo passamos a vê-la ao vivo e em cores , ainda sem nome, mas imediatamente batizada pelo meu neto, que a chamou de Zilah, em homenagem à sua avó.

Então fomos à luta pra tirar a árvore do seu lugar. E ela, que parecia tão boazinha, bateu o pé e resolveu não sair dali, como um bicho que se quer salvar e tirá-lo da floresta . Queria ficar na varanda com vista pra Lagoa e começou a fazer de tudo para nos vencer.

A primeira coisa foi não se deixar arrastar até a porta da varanda onde estava, nem por cinco homens, fincando o pé e passando a pesar uns 80 quilos. Então o rapaz do burro sem rabo que não queria perder o dinheiro, tirou imediatamente uma foice de uma bolsa, o que me matou de susto, de início, e começou a cortá-la como a um inimigo. E depois que a árvore emagreceu bastante, mostrou que era bem grande e que também não passaria pela altura da porta. Não passou. Então, o homem pegou a foice e cortou de novo os seus galhos que formavam os seus lindos cabelos.

Depois de passar pelas portas do apartamento, e todo mundo aplaudir o trabalho do rapaz, foi que notamos que havia muitos degraus pra descer com o jarro de “chumbo” até a porta do elevador. Os homens foram empurrando a árvore que rolou pelo chão antes de ser enfiada no elevador, onde desceu para a entrada do prédio com muitos outros degraus. Conseguimos empurrá-la até o burro sem rabo, com a rua toda assistindo e aplaudindo de pé.

Também não foi fácil colocá-la no meu jardim. Mas depois do meu namorado presentear o dono do burro sem rabo com mais um pouco de dinheiro, pagando por uma viagem que não sabíamos ser possível realizar, hoje Zilah está aqui exposta num canto, depois de ter transformado a história da Sacopã, numa rua ecológica, do bem e parte de um filme cômico, contrastando absolutamente com aquele antigo filme de terror.

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, terça

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