Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

Balzaquianas

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Acho que, com muitas exceções, é lógico, mas que também são combatidas, o mundo realmente abriu suas portas e armários para gays e casamentos entre eles. O racismo melhorou tanto, a ponto do Obama virar presidente dos Estados Unidos. Mas, é  claro, ainda existe muito preconceito entre raças, cores e religiões que levam as pessoas  a se matarem, usando o pretexto de Maomé ter sido ridicularizado em artigos e quadrinhos, para matarem mais centenas de pessoas como os alemães fizeram com os judeus, sempre usando a religião e a raça para desencadear uma guerra. 

Lá se vão 2012 anos depois de Cristo, e as brigas continuam. O que foi atenuado, um pouco,  até hoje, foram preconceitos mais ligados à política, mas parece que a graça da maioria das religiões é a de serem violentas e imutáveis, obviamente, algumas mais ligths do que outras.

Sobre o preconceito, acho que as mulheres foram as que mais lutaram e conseguiram se livrar dele, por volta dos anos 60, quando houve uma retomada de Sartre e Simone de Beauvoir, do então “existencialismo”, que passou para a era do hipismo, bastante parecidos, os dois, com uma nova ideologia, tanto  existencialismo quanto hippysmo, que abrangiam uma ideologia que deixou tudo o mais debaixo do “arco da velha”.

O único que elogiou as mulheres de 30 foi Balzac, e ser balzaquiana transformou-se numa qualidade e não no começo da velhice. Foi ele “que deu na pinta”, estabelecendo que “mulher só depois dos trinta”, como se cantava nos bailes infantis de Carnaval.

Depois dessas reviravoltas, as mulheres começaram a trabalhar em todos os setores, passaram a não depender mais dos maridos, a se separarem, se casarem ou se “juntarem”  outra vez, a saírem acompanhadas só das amigas, à noite, para beberem nos bares, enfim, a frequentarem os mesmos lugares que os homens sem serem tomadas, como dizia minha avó, por “mulheres fáceis”.

Tive duas tias que quebraram esses tabus, uma, sendo advogada, trabalhando e dirigindo um carro, e outra, secretária, que também casou de novo, tinha um carro conversível e ia com ele, sozinha, até o Joá pra ver a vista e espairecer.

Mesmo quando já tinha 15 anos, meu pai me proibia de passar na Niemeyer, caso estivesse com amigos, de carro. O Joá era considerado imoral, embora ainda não existissem motéis e ninguém pensasse nisso na minha adolescência. Gostávamos de passear, assim como minha tia, ver a vista, tomar um lanche no Esquilo. As coisas ainda não eram assim escancaradas como hoje em dia e podia-se dizer que éramos ajuizadas e apaixonadas platonicamente, sem nenhum toque de mão, só de olhar.

Mas o que me espanta em toda essa mudança que houve no mundo de preconceitos e tabus, é que acho que ficou um, apenas, que nunca mudou e nem se pensa nisso: o marido ou namorado ser mais jovem que a namorada ou mulher.

Os homens podem ser vinte, trinta anos mais velhos que as moças e só são  elogiados por isso. Já as mulheres mais velhas que os maridos, mesmo que sejam três, quatro anos, chegam a ser capas de revista, tal a coragem e raridade.

Quase sempre fui mais velha que meus namorados, dois, três e até seis anos, mas jovem pode tudo. Acho que depois dos cinquenta é que a barra começa a pesar.

Ainda bem que existe o Google agora, que diz a idade verdadeira de todo mundo, pelo menos a dos famosos, por que antigamente as mulheres tiravam, no mínimo, dez anos de sua vivência, escondendo–a de tudo e todos, e a falsificação de documentos era um ato normal.

Minha mãe, que sempre diminuiu a idade, na vida e na carteira de identidade, passou mal uma vez lá em casa e “desmaiou”, chamando a atenção de toda a família. Eu cheguei a chorar. Papai chamou o médico, que perguntou a idade da paciente. Papai respondeu:

- Quarenta e sete.

Minha mãe, se levantou imediatamente da cama, sentou-se nela,  abriu os olhos e respondeu, indignada:

- Eu tenho trinta e oito.

Caindo dura de novo.

Tive um acesso de riso junto com a minha irmã e entendi, aliviada, que o que ela queria com aquele desmaio era chamar a atenção do meu pai.

Será que a idade vai ficar para sempre escondida no corpo das mulheres e se transformar no último tabu?

 

 

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, sexta

Compartilhe:

Tweet

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.