Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

A força do hábito

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

É impressionante como o ser humano vai se habituando a coisas boas e ruins.

Tenho horror a deitar de dia, principalmente depois do almoço, pra dar uma descansadinha. Por que é certo que em vez daquela dormidinha gostosa, vem um bando de maus pensamentos, tipo: “por que eu não fiz isso, por que fiz aquilo?”. E a culpa que me dá é tão grande, que me levanto imediatamente, por que se deixar vou acabar me habituando a ela e achando que é normal.

Então vou pro computador, vejo o jornal na TV e, de noite, tenho saído pra assistir a coisas boas em vez de ficar em casa, desconsolada, por vários motivos que não abandonam a minha cabeça, tipo se preocupar com a família, com a obra, com o dinheiro, com a saúde, enfim, com tudo, o que sei que não faz bem, ao contrário, o “segredo” é ser otimista e calma, acreditando em Deus, na vida, e nos milagres que podem acontecer.

Já fiz muita meditação pra me livrar dessa mini-depressão que há muito tem me perseguido, e se Deus estiver de acordo vou me livrar dela.

Então me esforço, vejo os jornais, a parte de cultura, e escolho um espetáculo pra ver, o que, geralmente, me encanta.

Foi o que aconteceu ontem, quando fui ver o documentário sobre a Tropicália, dirigido por Marcelo Machado, com filmes sobre os shows da década de 60, quando o movimento começou com Caetano e Gil, na Bahia, e se espalhou  pelo Brasil, com Nara Leão, Maria Bethânia, Mutantes, Gal Costa, juntando o pop à música brasileira e criando com isso uma nova história. O filme faz até uma homenagem ao Rei Roberto Carlos, que nunca esteve tão lindo.

A época foi uma das melhores da música brasileira, apesar da ditadura proibir tudo o que era bom, prender seus compositores e cantores que acabaram se exilando na Europa, onde escolheram Londres, deixando Paris pro Movimento Estudantil, cineastas, intelectuais, políticos e outros perseguidos por muitos outros motivos.

Se não fosse a situação crítica do Brasil no momento, que fez com que a nata dos intelectuais conseguisse escapar da prisão e da tortura, teria sido uma época abençoada, que nos oferecia chegar em Londres, por exemplo, e encontrar Caetano, Gil, Glauber Rocha, Julio Bressane, Rogério Sganzerla, Helena Ignez, Maria Gladys, Jorge Mautner de cabelos imensos e lisos alem dos Arraes, como a Violeta, que me hospedou junto com meu marido fugido da cadeia.

Foi muito comovente ver a Nara Leão, minha amiga que morreu tão cedo, cantando no show do Opinião. Linda, delicada, emocionante.

Que época inventiva, apesar da ditadura militar!

Sempre me amarrei na música brasileira desde, digamos, Noel Rosa, Hekel Tavares, que era amigo do meu avô, e sua inesquecível canção “Sussuarana”, Cartola e outros compositores que conheci através do meu professor de violão, Patrício Teixeira. Tenho seus cadernos com as letras das músicas guardados até hoje.

Depois veio a Bossa Nova e eu caí de boca. João Gilberto, Carlinhos Lyra, Roberto Menescal eram realmente de tirar o fôlego nos LPs que ouvia na vitrola portátil! Oh, maravilha!

Continuo gostando demais da nossa música, a de Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhoto e é muito bom ligar o rádio na MPB e ouvir a mistura de todas essas gerações.

Não sei se foi a força do hábito que me fez ser assim, através da minha família toda que tocava e compunha, como meu avô, Gastão Penalva, do meu pai no piano e no violão, o fato é que não posso passar sem ela:  a música popular brasileira!

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, sexta

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