Na sobremesa da vida
Fui assistir, ontem, com meu amigo, à peça escrita por Maria Leticia, Na sobremesa da vida, dirigida por Ernesto Piccolo e encenada por Emiliano Queiroz, Ivone Hoffman, Antonio dos Santos e Ana Queiroz.
O Teatro dos Quatro, na Gávea, estava absolutamente lotado de “sobremesas”, em geral, ou seja, de pessoas idosas que passaram por muitas coisas das quais fala a peça, desde o tempo da Segunda Guerra Mundial, dos black outs, dos americanos e dos alemães, mas, na verdade, ela conta mesmo é a biografia do Emiliano, que começa no Ceará e vai passando por históricos acontecimentos em São Paulo e no Rio.
Ali me deparei, também, com vários trechos da minha própria vida, assim como, acredito, o resto da plateia.
Ainda criança, com a guerra, que já tinha acabado mas que ainda se falava sobre ela, lá em casa, em geral, durante as refeições, quando a família se reunia pra comentar os absurdos que o mundo acabara de passar.
Depois, ainda em comum com Emiliano, tive a profissão de atriz, as passeatas contra a ditadura, os militares procurando e prendendo gente de teatro, e querendo prender Sófocles, “aquele autor comunista”. Os ácidos, que assim como eles fazem na peça, cortávamos ao meio, dividindo-o com um amigo, vendo, imediatamente a realidade se transformar em instalações iluminadas. Em comum tive também mortes de parentes enquanto se estava representando uma peça e não se podia parar, como a do meu pai que ocorreu no meio do espetáculo Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, meu primeiro trabalho encenado no Teatro Opinião e escrito por Vianninha e Paulo Pontes.
E o mais terrível de tudo foi que, quando eu já estava conseguindo fazer a peça de novo sem chorar, morre o Jayme Costa, que fazia papel de meu pai, uma coincidência desnecessária que veio aumentar minha depressão.
Mas não foi só por essas histórias, que passei ao mesmo tempo que Emiliano e Letícia, que gostei muito da peça. Além de tudo é bem escrita, encenada por quatro atores que mudam de papéis, uma história interessante que conta desde os primórdios do rádio, das novelas, das modas e das lutas no Brasil.
Todos aplaudiram o espetáculo de pé, e foram cumprimentar os atores depois.
Não acho, sinceramente, que a terceira idade seja a sobremesa da vida. Se não fossem essas lembranças maravilhosas da mocidade, de que poderíamos falar que fosse assim tão instigante?
Acho que a vivência da nossa geração (hoje chamada de sobremesa da vida) foi muito especial e interessante, misturando luta armada com a paz dos hippies e suas drogas lights e virando a mesa em matéria de liberdade que surgia com Leila Diniz, grávida, de biquíni, com a barriga de fora, o topless nas “Dunas da Gal”, o exílio e a Tropicália, tornando-a muito especial, como devem ter sido também os anos 20 com a virada nos costumes e nas artes.
É uma peça que não dá pra perder, mesmo pra quem esteja entrando na vida e que ainda tenha que engolir muito sapo pra chegar à sobremesa, onde, de preferência, deve-se colocar muito açúcar ou mel, alám de uma metadezinha, não mais de ácido, mas de rivotril...
