Ora, pílulas!
Uma amiga foi comprar shampoo numa farmácia do bairro, e antes de entrar na fila pra pagar, ficou olhando os produtos, até que bateu os olhos num remédio contra depressão, falta de autoestima e medo. Então ela pensou: “Foi feito pra mim”.
E, animada com a descoberta levou o remédio até o caixa e disse à moça que a atendeu: "Não conhecia esse remédio. Era tudo o que eu precisava. Que maravilha!".
"A senhora tem cachorro?", perguntou a caixa.
"Cachorro? Não. Por quê?".
"Por que esse remédio foi feito pra cães, e não pra gente".
Minha amiga ficou tão decepcionada que disse que iria levar o remédio assim mesmo e passou a tomá-lo como se fosse uma cachorra
"Está se sentindo bem?", perguntei, depois que a encontrei na rua, já sabendo da história da farmácia.
"Ótima! Dei uma parada no rivotril".
"Não posso acreditar!", comentei.
"Ora, se virasse um remédio da moda você e todos os nossos amigos iam tomar".
"Bem, se ficar confirmado que é muito bom assim como o Equanil, que a minha família tomava quando eu era garota, o mandrix, que a minha turma descobriu e que ainda acho que era o melhor deles, aí, como era muito bom, acabaram com ele e começamos a tomar Lexotan receitado pelos médicos e agora o Rivotril", disse.
Passei por todos eles, sempre com medo do último não ser igual ao anterior, mas acabava embarcando na conversa dos amigos e dos psiquiatras, que até hoje mudam de pílulas de tempos em tempos e o último calmante a aparecer sempre vira o “must”, fazendo os outros ficarem demodés. Ora, pílulas!
Mas ainda lembro dos baratos de cada um. O mandrix era o melhor e fazia tudo em volta da gente virar um céu estrelado. Nada ficava ruim ou mais ou menos. Mas, é claro, que por isso, viciava, já que todos queriam viver no céu e não na terra.
O lexotan, segundo as filhas de uma amiga, na faixa dos vinte anos, deixava-as “lexoltinhas” fazendo tudo o que passava pelas suas cabeças, e o rivotril, é mais remédio mesmo, acalma e pronto, acabou-se. Também existe algo melhor do que ficarmos calmos? Ninguém está mais aí pra ficar lexoltinho. Acho que já estamos...O que eu quero é sossego!
Na época do mandrix, Isolda, uma amiga minha, atriz, que era viciada nele, começava a falar meio trocando as letras como se estivesse um pouco bêbada e eu perguntava:
-Isolda, quantos mandrixs você tomou?
E ela respondia:
-Só um caquinho...
O que queria dizer o equivalente a dois ou três inteiros. Se eu fizesse isso, morreria.
Mas sempre me lembro dela quando tomo (sinceramente) um caquinho ou dois de rivotril, o que quer dizer, pra mim, menos de meio. Mas é difícil viver sem esse remédio, mesmo que seja um caco ou dois, e já voltei de Petrópolis, uma vez, por que o esqueci no Rio. Meu namorado queria me matar. Mas bati o pé, no carro, e disse que lá eu não conseguiria receita pra comprar o remédio, até que uma amiga me levou até o seu psicanalista que me atendeu, graças a Deus, pra não acabar com o meu fim de semana, ou passá-lo no hospício. Se sou viciada? Acho que é o meu único vício: que seja um caquinho, mas ali presente.
E aí lembrei-me de uma piada que um assistente de figurino da Globo me contou sobre os Beatles, e que ele mesmo tinha inventado ajudado por um mandrix, no camarim.
Toca o telefone e alguém do outro lado da linha pergunta ao atendente:
-O Ringo Starr?
-Não. Foi Paul McCartney no correio.
-Cartney? Que Cartney?
-A Cartney que o John estava Lennon...
Meu Deus, como éramos inspirados e inteligentes naquela década de 70! Jamais esquecerei dessa poesia maravilhosa, feita de repente, no camarim da Globo do Jardim Botânico enquanto esperávamos a hora de ir pra sala da Guta nos divertir com todo o elenco da novela antes de comer um sanduiche no bar...
