Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

Reflexos da vida 

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

É estranho o que me acontece agora, de encontrar pessoas conhecidas que contam casos dos quais participamos juntas e, absolutamente não me lembrar de onde. Ou são colegas de cursos de roteiro, de clubes frequentados em diferentes fases da vida, ou mesmo amigos de amigos que nunca mais vi. Os que aparecem no skype são, em geral, amizades feitas na Europa, onde morei, e que reconheço imediatamente, pelo texto escrito pra mim, e não por saudações feitas ao vivo e em cores sem ao menos um crachá que os identifique ou alguma coisa que me dê alguma pista de quem seriam.

No Faceboock, fico em dúvidas se entro, por causa do Orkut, onde falei bem das obras feitas na Comunidade do Santa Marta, e os moradores revidaram dizendo que eu não poderia falar nada por que nunca tinha ido lá ver. A coisa foi pegando tanto, que tive que contactar, por telefone, um pacificador da comunidade e conversar algum tempo com ele.

Compreendi perfeitamente o ódio da comunidade contra mim, já que não me conheciam e me consideravam, segundo eles, “uma dondoca da Vieira Souto”, que não podia estar do lado deles, mas sim fazer parte dos que os desprezam  e expõem seus preconceitos contra eles desde a descoberta do Brasil. Acontece que sempre gostei dessas pessoas. Quando ainda era pequena morava em Botafogo e brincava com crianças que moravam no morro e que brincavam comigo na minha casa,  junto com a minha babá e também com outras que moravam em casas de cômodos, ficando absolutamente pasma quando minha avó me proibiu de convidá-las para o meu aniversário, para não misturá-las com as minhas colegas de Sion.

O dia em que minha mãe me contou que minha babá era negra, assim como as outras empregadas lá de casa, também não entendi nada. Acho que as enxergava por dentro onde não tinha cor, só amor que extravasava pelos seus poros tingindo-os de todos os tons delicados.

Uma vez o jardineiro português queria cortas as pernas dos “moleques”, como eram chamados os meninos das casas de cômodo que estavam jogando futebol no gramado lá de casa. Pra isso pegou sua tesoura de cortar grama e correu atrás deles, até que todos pularam o muro voltando para  as suas casas. Eu ainda não sabia o que era ficar indignada, mas não entendia por que os meninos de rua tinham que ter as pernas cortadas por que estavam jogando futebol.

Fiquei contente quando papai pegou um ladrão que gritava por socorro em cima da mangueira lá de casa, fugindo do cachorro bravo que o queria pegar. Papai apareceu, armado de revólver, mas com pena do homem, em pânico, em cima da árvore, tirou o cachorro, guardou o revólver e mandou-o descer e fugir dali, o que ele fez imediatamente.

Hoje li nos jornais que querem processar os livros de Monteiro Lobato (meu autor preferido quando criança),  por racismo. Sou absolutamente contra a ideia e duvido que Monteiro Lobato fosse racista. Vivia, sim, num tempo em que as pessoas eram separadas entre brancas e negras mas Tia Nastácia era uma santa e nunca vi o autor falar mal dela a não ser descrever o seu tipo e cor, o que era normal naquela época, e nos fazer achar graça em tudo o que ele dizia sobre ela, sem maldade e com muito humor.

Estava assim mergulhada na minha infância quando resolvi jantar fora com o meu companheiro para voltar ao aqui e agora, e conversávamos sobre assuntos variados do presente, quando na mesa ao lado, onde os clientes falavam francês, um garotinho de uns seis anos começou a cantar a música” Fait Dodô” que aprendi no Colégios Sion e não a ouvia desde o primeiro primário. Não resisti e cantei a segunda parte da música com o menino fazendo a mesa de franceses me olhar espantada e eu me espantar mais ainda  com a minha memória que trazia cada sílaba da música à minha cabeça mas que me faz esquecer fatos e pessoas de agora.

E voltei pra casa cantando sempre a música que me levou de novo à infância e nunca mais me saiu da cabeça.

“Papa est en haut et fait du gateau

Mama est en  bas et fait du chocolat…” 

Tags: coluna, crônica, dhal, lúcia, Maria

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