Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

Comédias e tragédias 

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Ligo a televisão pra ficar em dia com as notícias e acontecimentos no mundo e minha filha diz que eu sou uma masoquista que só gosto de tragédia. Mas o que eu mais abomino na vida é uma tragédia, mesmo as gregas ou as de outras nacionalidades montadas maravilhosamente no teatro. Gosto muito mais quando a peça ou o filme são bons, mas chegados a comédia, daquelas que desopila o fígado, (como “O Ditador”, por exemplo),  ou levam pra bem longe a depressão, já que eu não tenho problemas de fígado, graças a Deus, embora não goste mais de beber, a não ser uma cervejinha inocente, de vez em quando, que ninguém é de ferro. 

Claro, não sou mais aquela garota que mentia a idade pra entrar no bar do Hotel Miramar em Copacabana e tomar daikiri na cobertura, fofocando com a turma, às gargalhadas.  Mas a tragédia surge assim, do nada, e quando olhamos lá de cima do Miramar em direção ao Leme, um incêndio estarrecedor lambia um edifício e também nossos risos jovens. Não sabíamos que lugar era aquele em chamas, até que chegou alguém na varanda do Miramar, contando que a boite Vogue estava pegando fogo junto com o resto do edifício.

Fiquei pensando no cantor americano Warren Hayes, que minha irmã conheceu lá, num show, com meus pais, e no resto das pessoas desconhecidas que não tinham chances de se salvar e fiquei estatelada olhando o fogo, mesmo que fossem oito horas da noite, uma hora depois do meu horário de chegada de voltar pra casa, combinado  com minha avó, que nesse dia estava tomando conta de mim.

Fiquei até um pouco mais tarde e, quando cheguei, vovó, tomada por essa notícia pavorosa no rádio, estava passando mal do coração, com certeza achando que eu pudesse estar metida naquelas bandas incendiadas, pois para ela era a mesma coisa, tanto o Hotel Vogue quanto o Miramar.

Entendo bem isso agora, pois sinto o mesmo com a minha filha ou meus netos se demoram a chegar de algum lugar que não estava combinado. Mãe e avó não têm mesmo sossego e continuam presas eternamente pelo cordão umbilical.

Chegando em casa, alem de ver o incêndio na televisão preto e branco, soube que o cantor Warren tinha se atirado pela janela, junto com mais uma pessoa, que um outro se salvara descendo pela janela, do sétimo andar, como Tarzan na selva, usando pra isso lençóis amarrados uns aos outros. Quem poderia imaginar essa tragédia num dos lugares mais chiques e badalados de Copacabana, onde se encontrava tanto a burguesia quanto músicos e intelectuais da época.

Hoje, ligo a TV( a cores) durante o café da manhã no meu quarto, e vejo uma comunidade inteira pegando fogo nas suas casas ainda feitas de madeira, com pessoas agarradas ao que puderam salvar, como uma TV toda queimada, uma geladeira estragada e mulheres agarradas aos filhos dizendo que perderam tudo.

 Vejo também uma passeata clamando por moradias, enquanto o juiz Lalau é condenado a uma prisão domiciliar na sua própria casa com piscina, com direito a segurança, depois de ter posto no bolso dois milhões e cem mil dólares, enquanto quem perde a casa fica na rua ou quem vai para a prisão se junta a milhões de pessoas na mesma cela sem poder se mover, enquanto seu Lalau desfruta de todas as condições de comodidade na sua preciosa mansão, enquanto ladrões mais modestos roubam carteiras de vítimas, e pegos em flagrante, dão gargalhadas olhando pra câmera, por estarem se tornando  celebridades.

Gostaria tanto de assistir a um bom filme verdadeiro, tal como os comunitários ganharem casas, os mensaleiros irem para a prisão, a ecologia funcionar nessa cidade que nos manda separar o lixo normal do reciclável, garantindo que passarão para pegá-los em dias diferentes, mas não fazendo nunca o combinado, misturando tudo e fazendo-nos desistir também de sermos civilizados e idiotas.

 

 

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, sexta

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