Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

O ditador 

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Ontem, meu neto de 12 anos me pediu pra vermos o filme O Ditador, que um colega de colégio tinha dito que era ótimo. Não fazia a menor ideia do que se tratava, só sabia da história  através do que contava Antonio, repassando o que o colega de turma relatou. A outra opção seria o Batman, que eu não era muito chegada, e depois então do crime que houve no cinema, nos Estados Unidos, me deu um certo horror de ver o Coringa, que já foi o Jack Nicholson, maravilhoso, com uma boca de Gal Costa,(no auge da sua boca),  virar assassino, é demais. Não vejo.

Então meu namorado, o neto e eu optamos pelo Ditador, por ser uma comédia e estar passando perto da casa do meu amigo, na Barra.

No mesmo segundo me apaixonei pelo ator judeu-britânico, que ganhou o Globo de Ouro em 2007, Sacha Baron Cohen. Um verdadeiro gênio. O filme tem também o Ben  Kingsley que eu gosto muito, mas o maravilhoso mesmo é a total falta de censura do roteiro que me fez perceber que também faço parte desta nova era. Não existe censura pra idade nenhuma mais. O filme mostra todas as partes do corpo de um homem ou de uma mulher, fala de todas as sacanagens, de uma forma absolutamente normal e inocente, e o melhor de tudo: cheio de humor.

Acho que não houve cena em que nós, e o cinema inteiro, não tenhamos rido muito.

Não é um filmaço, não, não é. Não é o Ditador, do Chaplin, aquele filme incrível, o que ele pretende mesmo é ser debochado e engraçado.

 Realmente não existe mais censura no mundo. Cada um vê o que está na frente como quer. Agora, sim, liberou geral! Tanto o visual quanto os diálogos. O que se pensa, diz. E não é grosso. É exposto. No início fiquei meio espantada, mas logo mergulhei naquele tipo de humor que não é sofisticado nem grosso. É só deboche.

Quando comecei a fazer cinema, o Cinema Novo era intelectual e requintado, as chanchadas eram engraçadas, mas tendendo sempre pro humor  mais grosso. A música brasileira foi-se transformando com a Tropicália de Caetano, Gil, Gal;  o samba, com Paulinho da Viola, que encontrei outro dia aqui na rua e ficamos horas falando da nossa época, do teatro Opinião, onde fiz minha primeira peça, do Vianinha, com um extremo humor, e o Paulinho cantava suas músicas maravilhosas em outros horários.

- Que saudades daquela época, meu Deus!, disse o Paulinho.

Eu também tenho, é claro, sobretudo por ter sido a minha juventude, mas agora entendo que o mundo mudou completamente, não trazendo somente a tecnologia, mas acabando com todo e qualquer preconceito, seja de humor, sexo, raça ou cor . É, pelo menos,  o que se tenta agora.

É claro que sempre vai ter um doido, como o cara que encarnou o Coringa, podendo encarnar o Batman, mas qual foi a época em que o humor superou o horror?

Se as pessoas todas se unirem pelo bem do próximo, que não deixa de ser ele mesmo do outro lado, quem sabe um dia daremos gargalhadas no jornal da TV em vez de nos prepararmos pra guerra da moda ou nos armarmos  pra ela?

Gentileza gera gentileza, dizia o profeta.

Vamos acreditar nessa profecia e lutar por ela.

 

 

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, terça

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