Grenoble
Com essa obra em casa, procurei muita coisa que eu lembrava e não achei, como vasos de cristal da minha mãe, por exemplo, mas, em compensação, encontrei coisas do arco da velha (literalmente) que me deram uma felicidade que saiu lá de dentro da minha alma.
Li sobre uma psicanalista que dizia que a casa da gente é o nosso corpo e talvez nos desesperemos tanto quando se perde algum objeto da casa porque é uma parte dele.
Mas teve uma coisa que achei engraçada: no meio do meu “corpo”, tinha vários cinzeiros de todos os feitios guardados dentro de armários que fui tirando, extasiada.
Coloquei tudo em cima da mesa de vidro da sala, e meu neto encheu-os de pequenos brinquedos de plástico, pois até hoje, aos sete anos de idade, acho que ele nunca viu um cinzeiro funcionando como antigamente, esperando a cinza cair dentro dele ou um cigarro apagado.
É raríssimo, hoje em dia, alguém que fuma, pelo menos que venha aqui em casa, e o preconceito contra o fumo é tão grande que o meu pedreiro que fuma, muito de vez em quando, sai do pátio e vai acende-lo no portão.
Na época hippie, fumava-se unzinho que passava de mão em mão. Eu não gostava. Sempre amarrei bode com cigarro de maconha que rolava naquela época como hábito normal. Olhava pro teto e achava que ele ia desabar em cima de mim, tinha medo de tudo e rezava pra aquele efeito acabar logo, pois eu só dava um traguinho pra acompanhar os amigos e não ser chamada de “careta”.
Uma vez, eu estava em Paris e encontrei um ex-namorado que me convidou pra ir pra Grenoble, onde eu nunca tinha ido e nem pensava nisso, pois lá eu não conhecia ninguém.
E enquanto eu cantava feito a “portuguesa” da “PRK-30”, “Não sei se ba ó se fique, não sei se fique ó se “ba...” ele acabou me convencendo a pegar o trem e partir pra Grenoble, onde ficaríamos na casa de um casal mais velho, amigo dele, no meio do mato.
Estava, como “a linda Inêz, posta em sossego” como dizia Camões nos Luzíadas, quando meu amigo me apareceu esticando o braço em minha direção, com um baseadinho entre os dedos. Pra não fazer feio nem parecer antipática, dei uma tragada e devolvi o cigarrinho pra ele, que o pegou na mão e jogou fora. Perguntei se ele não ia fumar comigo e ele disse que não, pois ia passear pela cidade com os donos da casa e que me veria depois no almoço. E saiu rápido, sem se despedir pra não perder a carona.
Quando me vi sozinha numa fazenda enorme, numa cidade que nunca tinha visto, chamada Grenoble, tendo dado uma tragada num cigarrinho, pensei que fosse enlouquecer de vez.
Me agarrei a um cachorrinho que me olhava no jardim, comecei a chorar e pedir pelo amor de Deus que ele não me abandonasse. Ouvia sons esquisitos, via insetos andando pelo jardim, olhava as árvores e tudo me dava medo e, quando o cachorro queria sair um pouquinho de perto de mim, eu começava a chama-lo e o agarrava de volta.
Então fui possuída por uma auto-estima inesperada, fui até o meu quarto, peguei minhas roupas, coloquei na mala e fui pra estrada pedir carona até o trem, antes que anoitecesse. Um carro parou imediatamente e o motorista perguntou se eu estava me sentindo mal, me levando de muito boa vontade, até o ponto de trem que peguei e voltei sozinha pra Paris, já livre daquele estado lamentável que o fumo produz, mas sentindo uma rejeição inenarrável.
Quando cheguei em Paris, o Leon Hirshman - meu amigo cineasta, me contou da morte da Leila Diniz num desastre de avião. Leila era namorada do tal “amigo” que me levou pra Grenoble. Telefonei pra ele, que veio me encontrar no bar onde eu estava com o Leon. Contei pra ele da Leila e deixei-o com o queixo caído, sem conseguir falar.
Agora, passados mais de trinta anos, ele me liga de Roma, dizendo que tinha muita saudade e que queria falar comigo. Respondi que ainda não tinha me esquecido de Grenoble, mas que não guardo nenhum rancor de ninguém, e que um belo dia a vida faria com que nos víssemos.
E então voltei a arrumar os cinzeiros de prata nas mesinhas da sala, dando graças a Deus por eles não terem mais a menor serventia aqui em casa, a não ser guardar os brinquedos do meu neto.
