Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

As coincidências da vida 

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Ontem fui ver mais uma exposição de Instalações, da qual faz parte minha sobrinha, Beatriz Carneiro, com obras bem diferentes e fotos parecidas com as que fazia o seu pai, o cineasta-fotógrafo, Mario Carneiro.

Assim como quase todos os participantes da exposição, ela trabalhava num atelier dentro da antiga fábrica Bhering, que passou recentemente por altos e baixos, com o prédio correndo risco de ser derrubado. Até que a turma dos artistas se juntou ao prefeito Eduardo Paes, e ele optou por tombar o prédio, o que fez a alegria da festa  de ontem feita numa outra casa linda, na Gávea.

Depois fomos jantar no Guimas, como antigamente se fazia toda semana. Era o point, na década de 80. O primeiro Guimas, antes dos outros, em Ipanema e em São Conrado, que eram gostosos mas não tinham a magia dos anos 80, quando  se vivia em grupo. Bastava ir a um lugar interessante que virava logo referência da turma que não o largava mais, mesmo que descobrisse outros lugares que também eram agradáveis. 

Até psicanálise se fazia em grupo, cujos participantes viravam irmãos e todos eles nos ajudavam nas horas difíceis, trazendo, ainda por cima, o psicanalista a tiracolo. Passei por isso algumas vezes, aqui em casa, em situações desconcertantes. Depois saíamos para tomar um chopinho e aliviar a mente.

Hoje em dia eu chego nos lugares e não conheço mais ninguém. 

O Guimas da Gávea tinha esse efeito de análise de grupo, onde se conhecia todo mundo e podia-se falar de tudo com os amigos nossos e dos donos, Chico Mascarenhas e sua mulher, que também tinham passado tempos na Europa na época do exílio, não sei se exilados ou turistas, e nos recebiam como se o restaurante fosse a sua casa.

Depois passei muito tempo sem frequentá-lo até voltar, ontem, e passar por algumas coincidências agradáveis. 

Uma foi encontrar um casal de amigos, ex-colegas de colégio São Fernando, que me deram telefones preciosos de outros colegas, que eu estava precisando e que também não via há muito tempo. 

Outra coincidência extraordinária foi a Helena Costa, minha amiga, filha do Lúcio Costa, ligar para o meu celular querendo saber como achar alguém da família do falecido cineasta Joaquim Pedro de Andrade, na hora exata em que sua filha chegava na nossa mesa para falar com a gente. Passei o telefone para ela, que não  conhecia a Helena mas transmitiu para ela todas as dicas. 

Será que a vida nos leva mesmo aos lugares certos na hora certa, onde se pode continuar um papo começado no início da década de 80, só nos esquecendo de alguns nomes de pessoas que queremos lembrar junto com os amigos e ficam na ponta da língua ou do cérebro e insistem em não sair dali, já que não existe mais nenhum analista de grupo,  e todos digam que a falta de memória é produto da idade, embora com quinze anos e morando na Avenida Atlântica, eu já perguntasse, se a Avenida Copacabana ou a Barata Ribeiro, era pra lá ou pra cá,  fazendo  um sotaque de paulista, pra não pagar mico,  e perguntando os absurdos que queria.

Meu marido já me dizia aos vinte anos de idade:

- Não seja insegura. Quando você achar que é pra esquerda, vai pra direita!

Continuo igual. Da chamada sabedoria da idade, só vejo coisas, hoje em dia, impossíveis de serem consertadas e que, obviamente, não faria mais. Mas e daí? Sei disso agora, mas naquela época não sabia. Falta de sabedoria? Pode ser. Mas se a gente só fica alerta depois de certa idade, vai  aplicar esta experiência aonde? Na outra encarnação? 

Talvez no restaurante Guimas, que está no mesmo lugar, com as mesmas fotos na parede, os mesmos quadros, dos quais o do cachorro Rex, do Angelo de Aquino, é o que mais me dá saudade e alguns frequentadores de época que nos fazem continuar um papo  contínuo, cada um lembrando de uma coisa específica como nas saudosas análises de grupo.

Tags: coluna, dhal, lúcia, Maria, terça

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