Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

A “Turma do Arpoador” 

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Às vezes compartilho do trabalho de algumas amigas corretoras e vou ver apartamentos para vender, numa época em que uma casa que custava R$ 12 milhões passou a valer R$ 4 milhões, e vice-versa. Vi algumas que valiam R$ 700 mil subirem para R$ 1 milhão, em uma semana, e por aí vão e voltam, como o mensalão, onde há épocas em que se “abafa o caso”, outras em que volta com os mesmos protagonistas como um “Vale a pena ver de novo”.

Então fui ver um apartamento no Leblon, e quando encontrei o dono ele disse que me conhecia desde a época do Arpoador.

Fiquei lembrando da “Turma do Arpoador”, que conheci quando era garota, a original, que deu continuidade a outras de ideologias parecidas, e segundo a qual, ele, o dono do apartamento, me disse que não atuava, era só espectador.

Essa turma original era só de surfistas extremamente bonitos, modernos e sem preconceitos, em uma época em que as moças, em geral,  ainda eram virgens, que passavam o tempo na praia, surfando, pescando, namorando, etc. Não sei mais o que faziam na vida alem de surfá-la.

Dessa turma fazia parte o Arduino Colassanti, que era tão bonito que acabou sendo contratado como  ator de cinema, mas do que ele gostava mesmo era do mar, que o chamou, rapidinho de volta pra ele.

 Alem do Arduino, tinha vários outros gatos locais, e outros ainda que vinham de longe, como o Bruno Hermany, que fazia pesca submarina, em Angra dos Reis. Tudo era perfeitamente normal nessa turma, e acho até que já rolava, de leve, um fuminho. Pois ali, antes do Arpoador se tornar realmente o point, era o lugar mais avançado em matéria de costumes, com as “Dunas da Gal”,  os toplesses, os “mandrixs”, espécie de rivotril da época mas bem mais forte, que deixava as pessoas praticamente “viajando”,  Leila Diniz, a primeira grávida de biquíni. Tudo isso foi retirando os preconceitos das cabeça das pessoas e as roupas dos seus corpos.

Depois dessa épocas, quando eu frequentava a praia de biquíni de crochê cor de pele e flertava (ainda muito timidamente) com os rapazes bonitos, comecei a namorar um estudante, completamente fora dali,  que fazia parte do Movimento Estudantil. Era perseguido pela ditadura e, por causa disso, acabamos  fugindo para a Europa, aconselhados pelo seu advogado maravilhoso: Marcelo Alencar.

Fomos então para Paris e, enquanto aqui no Brasil os intelectuais se tornavam hippies e iam para a Bahia viver a vida sem preconceitos na forma de pensar, falar, agir e se vestir, para Paris iam os mais politizados, e cada amigo que chegava , eu perguntava por outro, em comum, e ele respondia:

-Fulano? Pirou!

O que queria dizer: virou hippie.

-E Sicrano?

-Pirou também. Foi  tudo pra Arembepe pra onde levaram até o Mick Jaegger! 

E os “pirados”’, que não foram pra Arembepe: poetas, cineastas, compositores e cantores,  foram pra Londres, (o Arembepe da Europa),  com suas mulheres, revelando seus incríveis talentos  travados pela ditadura militar.

 

 

 

Tags: coluna, dahl, lúcia, Maria, turma

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