Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

Reencontros 

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Ontem fui  a uma exposição de fotos chamada “Olhares Sobrepostos” ou, “Dois Zecas, dois Pedros, um Chico e um Domingos”, no Centro Cultural Justiça Federal. 

Além de todos os fotógrafos terem sido muito amigos meus, o que ainda sinto nas suas expressões depois da vida nos separar, cada um obedecendo o seu destino - ou seja lá como se chama essa trama de novela que sempre nos surpreende -, também fui amiga íntima da maioria dos convidados que estavam ali, todos revivendo momentos deliciosos com aquelas fotos no Rio, em Paris, Nova York, etc.

Época de passeatas contra a ditadura, épocas de paz, épocas de adolescência, colégios, clubes e por aí vai.

Minha memória virou um horror para nomes. Lembro de todos os rostos, ou quase todos, mas os nomes é que são elas. Seria maravilhoso se nós todos usássemos um crachá com o nome em letras grandes pra não pagar mico com os amigos íntimos que tivemos no passado. Pessoas que cheguei a morar durante o exílio em Paris. 

Foi, literalmente, uma festa retrô, com todos se abraçando de verdade e lembrando histórias engraçadas.

Quando encontrei a Deda, que me hospedou em Paris, lembrei-me de quando o maravilhoso Leonardo Boff teve problemas com a abominável ditadura e que então comentei com ela:

- Deda, audácia do bofe!

Com o Chico Mascarenhas, lembrei-me do Guimas da Gávea, que frequentávamos quase todo dia, depois que voltamos do exílio, sempre com novidades dos que ainda não tinham voltado escondidos em algum lugar do mundo. 

Tomávamos vinho e construíamos a nossa vida, tentando dar sentido aos fatos como num quebra-cabeças onde, às vezes, as peças não casavam mais, e construindo outros, cada vez mais inesperados.

Os anos 70 e 80, os mais felizes das nossas jovens vidas.

Depois a gente vai se afastando, casando, mudando de turma, sendo avós, mas aquela turma ali é como uma espécie de base feita por um poderoso bate-estacas que nos sustenta desde que a escolhemos.

Acordo no dia seguinte com uma sessão gratificante de tempo recuperado e resolvo ler o jornal que, como sempre, me deixa perplexa.

A estréia do "Batman", num cinema do Colorado, onde um doublé do Coringa, empenhado em se mostrar bom ator, matou 12 pessoas e feriu 59. 

Mas vem cá, estreia não é pra ser uma festa onde as pessoas que estão assistindo ao mesmo filme se confraternizam com os personagens e torcem por eles?

O máximo de mau gosto que já vi numa estreia era uma brincadeira, no antigo cinema São Luiz, no Largo do Machado, em que os meninos jogavam galinhas do segundo andar. 

Agora pessoas da mesma idade que aquelas entram fantasiados e matam os espectadores, saindo, felizes, de dentro do cinema, com o seu feito perfeito. Por que não escolhem o Batman pra salvar o mundo em vez do Coringa pra  acabar com ele? Por que o mundo virou ao contrário nos dando medo em vez de alegria? Por que preferir o papel de bandido, como se nós e o próximo não fossemos uma só realidade vista de ângulos diversos? 

Tags: batman, coluna, exposição, JB, maria lucia dahl

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