Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

Obras sem fim 

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Então meu pedreiro que falta toda segunda-feira, pelos motivos mais diversos, me disse que a obra na casa tinha, finalmente, acabado, a não ser que eu fosse fazer o chão do jardim, que é de cerâmica e precisa de um belo trato.

A previsão da obra era de quatro meses para se fazer um segundo andar e pintar o primeiro.Já se passou um ano e a obra está lá, firme!

Ontem, quando olhei meu rico dinheirinho separado para finaliza-la, quase tive um enfarte. A obra me levou quase tudo. E como se não faltasse mais nada, um vizinho chamou outros eletricistas pra dar uma olhada nos fios que soltavam faíscas. Disseram que num segundo elas poderiam  se transformar num incêndio que acabasse com várias casas. Resultado: tive que pagar mais um dinheiro grande que não estava nos meus planos. 

- Ou paga ou morre no incêndio, dizia o eletricista, só faltando mesmo um revólver apontado pra mim… A senhora escolhe.

Fui correndo ao banco enquanto eles consertavam a fiação toda embolada e alguns fios cortados, responsáveis pelas faíscas.

Então resolvi não me lastimar. A casa está ficando linda e fui descobrindo objetos de família, engavetados, dentro de armários, prateleiras e sobretudo dentro do meu inconsciente. Encontrei coisas que até Freud duvida e lembrei com detalhes  de épocas remotas guardadas nos álbuns de família, LPs que me levavam a festas, amigos, filmes, peças de teatro e namorados distantes.  

Não achei difícil lidar com essas velhas novidades, mas divertido ligar uma situação à outra, se bem que o tempo das fotos e dos discos eram, certamente, mais divertidos. Só não encontrei discos daqueles que quebravam, quando eu era bem pequena, mas lembrei de um, que meu avô tinha dado pra mim e minha irmã que ouvíamos, cantando no jardim, nós três, felizes da vida, quando minha avó chegou, tirou o disco da vitrola portátil, quebrou-o em mil pedaços, sapateando em cima dele. Vendo as nossas expressões boquiabertas, meu avô perguntou a ela, quase sem fala.

- O que foi isso, Guiomar? O disco que eu comprei com tanto carinho pras meninas ?

E ela respondeu:

- Você estava era ensinando coisas indecentes pra elas!Isso sim!

- Mas que coisas indecentes, Guiomar? Perguntou, pasmo, o meu inocente avô.

- Você acha carinhoso ensinar as crianças a cantar : “Tapa a bunda?”

- Guiomar, você precisa cuidar dos seus ouvidos. A música gravada chama-se “Na Pavuna” , que era o que cantávamos juntos quando você chegou!

Tambem encontrei trancados em lugares inimagináveis objetos de prata precisando de um banho e livros cheios de manchas do tempo, assim como nós, humanos, também nos surpreendemos com essas mesmas manchas nos nossos rostos.

A poeira da obra escurece a casa, mas ilumina o inconsciente como uma espécie de psicanálise que fez sentir-me ali, protegida, com toda a minha família. 

Não tenho mais nem vontade de sair de casa, mas ficar ali revivendo as minhas vidas através dos objetos guardados dentro de mim.

“São tantas já vividas... São momentos que eu não me esqueci... Histórias de uma vida que passei aqui..."

Tags: Casa, coluna, JB, maria lucia dahl, Tempo

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