O fim do filme
Meu amigo escultor Sylvio Flores me ligou pedindo pra fazer uma exposição de suas peças, na Osteria Dell Angolo, restaurante maravilhoso em Ipanema, sempre frequentado por nós e nossa turma de amigos, e onde também trabalhei como divulgadora na década de 90.
Falei com o Luciano, dono da Osteria, e ele concordou e me disse uma coisa verdadeira ao telefone:
-Tudo bem. Eu acho ótimo. Mas tem que ser já, né? Por que tá todo mundo morrendo...
- Nossa! É verdade! Gente com idade, sem idade, que se encontra num dia, de repente, pá! Morreu! - respondi.
- E as missas de sétimo dia? Continuou ele. Eu já nem posso trabalhar. Todo dia tem uma! Os anúncios no jornal...
Rimos muito, levando a coisa na piada, pra não começarmos a chorar.
Lembro de minha avó, quando eu era pequena, riscando os nomes dos amigos que partiram, de sua agenda telefônica. Hoje é mais fácil deletar.
Então acordo pensando nos meus milhões de afazeres com netos, empregados, pedreiros, etc, e mais um telefonema me informa sobre a “ida” da mãe do meu genro. Tinha idade, é verdade, mas o que quer dizer isso pra quem é amada, tem família e amigos?
Como é possível a conclusão de que realmente chegamos ao fim do filme, se esperamos sempre por um happy end? Como é que pode existir happy end, se todo mundo vai morrer? Ou será que o verdadeiro final feliz é mesmo do outro lado?
Foi só meu inconsciente entrar no consciente pra eu não parar de lembrar de uma lista de gente que já se foi. Que saco!
Antigamente minha irmã e eu costumávamos ir ao cemitério com minha avó ou minha mãe, e tapávamos a boca pra não rir enquanto elas choravam, olhando os túmulos com os nomes da nossa família que não tínhamos conhecido e passeávamos, sozinhas, vendo o túmulo de personalidades como Santos Dumont...
Fui pra casa pensando nessas pessoas todas que já se foram e ainda bem que apareceu meu neto, de 7 anos dizendo:
- Vó!
Achei que, como antigamente, ele ia perguntar, de brincadeira:
- Sabe quem morreu?
Mas ele tem 7 anos, os tempos são outros, o filme está no início e ele indagou com seu humor atual:
- Vó, sabe o que uma impressora disse pra outra?
- Não - respondi.
- O quê?
- Esse papel é seu, ou é impressão minha?
Que bom um neto pra fazer umas graças no meio do filme, já que estamos perto do final e o roteiro anda meio dramático...
A ideia que eu tinha de velhice era a das minhas avós, fofocando ao telefone, falando sempre mal de uma amiga comum ou dos próprios maridos. Ficavam na cama lendo Eça de Queiroz, ouvindo rádio ou saíam pra ir ao cinema, em Copacabana, e depois à Confeitaria Colombo.
E embora elas tivessem na faixa dos sessenta e pouquinhos, eu achava que velhice era uma coisa divertida, que não tinha que fazer nada, só passear.
Só não sabia que as cenas do filme mudavam tão de repente assim, do alegre pro triste, das amigas que se vão deixando as fofocas de lado, do meu ex-querido professor de violão, Patrício Teixeira, me deixando com um álbum de músicas dos tempos de Noel Rosa, Pixinguinha, Caymmi e outros sucessos do seu tempo, antes de entrar no meu verdadeiro, com João Gilberto e a Bossa Nova que fui aprender num outro violão de uma moça mais moderna, sem deixar os cadernos do Patrício que vejo até hoje.
Uma das músicas que eu mais gostava chamava-se “Manias”, da qual eu não sabia o autor.
Anos depois, encontrei Vinícius numa festa, falamos do Patricio Teixeira e perguntei quem era o autor da música "Manias", que naquela a época eu tocava tão bem no violão. Então ele pediu pra eu toca-la pra ele, num violão que pertencia ao dono da festa onde nós estávamos. Obedeci. Ele riu um pouquinho e me disse:
- Essa música é minha, Maria Lucia. Fui eu que fiz.
Passei a me achar “o cara”, que conhecia Vinícius de Moraes e ainda por cima tocava “Manias” no violão. E fiquei mais feliz da vida, parando de pensar em finais felizes e substituindo-os por um delicioso musical que acabava com a canção de Vinícius:
"Dentre as manias que eu tenho
Uma é gostar de você...”
