Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Maria Lucia Dahl

Guerra e paz 

Jornal do BrasilMaria Lucia Dahl

Desde 2004 que venho esperando a concessão da anistia que pedi pro pai da minha filha, já falecido, a um advogado que pertence ao “Tortura Nunca Mais”, e que me foi indicado por toda a turma de esquerda daquela época que passou por sofrimentos iguais ou parecidos.

Com raríssimas exceções, só pessoas muito bem indicadas por gente poderosa e influente conseguiu receber o que lhes era de direito. Como diz Caetano: “ou não”...

Pra isso, tive permissão de ver a ficha de meu ex-marido no Dops. Um susto! Li até uma declaração de um amigo, mentindo sobre a vida dele, apenas pelo fato de conhece-lo. Se fosse pra se defender da tortura ou da prisão, eu entenderia, mas nada disso seria feito, posto que estávamos fora do país. 

Hoje leio, com detalhes, no jornal, sobre a tortura da Dilma, submetida ao tenebroso Capitão Arruda. As justificativas do militar, seu prazer incontido de poder começar, como num trailer, arrancando-lhe apenas um dente visando certamente a sua morte como happy end. 

Cinquenta anos se passaram sem sabermos o que ocorria, realmente, no Brasil daquela época, que só publicava mentiras e ocultava o que havia de mais tenebroso como o que fizeram, por exemplo,  com o Stuart Angel, arrastando-o por um pátio com a boca presa ao cano de descarga de um carro, o que o fez morrer sufocado. E a tortura de várias outras pessoas, que nunca foram divulgadas, num tempo em que nem se podia comentar sobre elas por causa dos policiais escondidos e espalhados pelos  bares em voga pra pegar alguém em flagrante, ao mesmo tempo em que os políticos falavam de “transparência” na política, como se fosse uma reportagem sobre moda (o que não deixava de ser).

Ficamos sabendo agora, também, sobre “A Casa da Morte”, em Petrópolis, onde se torturava e matava numa das cidades consideradas das mais calmas do Rio. 

Os segredos desvendados envolvendo o presidente Geisel (que Glauber Rocha  gostava e influenciava as pessoas fazendo-nos não odia-los como aos outros), sem saber o que foi divulgado agora, que foi ele quem mandou armas para o Pinochet, no Chile, para ajudar a ditadura de lá.

Sinceramente, não vejo o mundo mudar. Muda de forma, mas o conteúdo é muito parecido. Desde antes de Cristo que estamos em guerra, com algumas pequeninas  férias e exceções.

Hoje em dia, por exemplo, não se tem mais diálogo. Se uma pessoa ofende a outra, de alguma maneira, leva logo um tiro na cara como resposta e pode ser esquartejado, enforcado, esfaqueado ou qualquer coisa que faça o assassino realizar  seu desejo, mesmo que vá pra cadeia dar um tempo.

Mas me alegro de ver também o mundo evoluir, lutando agora contra o racismo, o preconceito, a matança de bichos e plantas.

Minha geração continua lutando desde os anos 70, só que agora, pela paz no mundo, o amor e a verdade.

Será que a paz é possível?

São tão poucos os homens de boa vontade...  

Tags: coluna, ditadura, JB, maria lucia dahl, tortura

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