Delícias do mundo atual
Ganhei um computador da minha irmã tinindo de novo, no comecinho de sua vida e garantia. O meu velho, coitadinho, não estava mais dando conta de nada. Tinha o seu ritmo imutável que há anos o acompanhava, andando devagarinho, como qualquer velhinho com artrose, artrite, câimbra, cistite, arrastando os pés num ritmo enlouquecedor para quem tem pressa de mandar um e-mail, escrever uma crônica, levar o neto no colégio, esperar o mais velho deles chegar e se arrumar pra ir pra Petrópolis. Pensei que estivesse livre, para sempre, desse velhinho insuportável, quando o computador novo, recém-instalado, que era “o cara!”, chegou, olhou pra mim, fez umas gracinhas, ficou todo preto e recusou-se a funcionar. Ficava preto e branco de novo, assim como o cantor Al Johnson, só que, ao contrário dele, não cantava nem fazia graça, só me levava à loucura. Achei que era culpa minha, claro, uma mulher mais velha, tentando entender uma novidade “irada” , como dizem os meus netos.
Liguei pro meu técnico, jovem e amigo, habituado a lidar com minhas máquinas, mas o jovem computador continuava preto e inerte.
Fui até a Barra, na loja em que minha irmã comprou meu maravilhoso presente, pegar todos os seus documentos, tipo nota fiscal, etc, e depois de esperar algum tempo perguntei se eles me mandariam um técnico, já que a peça estava na garantia. A vendedora me disse que isso não era com a loja, mas com a fábrica do computador, em São Paulo.
- São Paulo? E como me mandarão um técnico na minha casa aqui no Rio?
- Não mandarão. A senhora liga pra lá que eles chamam o técnico para explicar tudo o que deve ser feito pelo telefone.
- Como me explicar o que fazer, pelo telefone, se não entendo nada disso nem ao vivo e em cores?
Fui pra casa, arrasada, e me lembrei de chamar o ex-namorado da minha filha, que é formado em computação.
Desmarquei todos os meus compromissos para esperá-lo, porque ele precisaria de ajuda em relação aos meus dados pessoais.
Ligamos pra São Paulo e nos deram o telefone da assistência técnica. Foram três horas de atendimento pelo meu celular contando com aquelas musiquinhas enlouquecedoras que nos obrigam a ouvir e os silêncios que sugeriam que o nosso técnico também atendia outras mil pessoas ao mesmo tempo, quando disfarçavam, dizendo:
- Vou passar pra outro técnico mais especializado nisso.
À cada segundo uma vozinha feminina nos pedia, gentilmente, pra esperar mais um pouquinho, e o que peguei o amigo da minha filha falando ao telefone era:
- Está, sim. O "lede" do power do computador, de frente, está piscando. Vou ver se o "lede" de trás funciona...
Mas que língua é essa, meu Deus? Finalmente foi adotado o Esperanto no mundo?
Depois de mais meia hora de conversa incompreensível, o tal do técnico de São Paulo entregou as chuteiras e nos mandou levar o aparelho numa loja especializada, aqui no Rio.
Chegando à loja, meu amigo e eu ficamos sabendo que não se poderia prever o tempo do conserto, mas que não seria menos de um mês.
Fui ao psiquiatra que me mandou escrever com uma Bic, num papel, como no século passado, e depois passar tudo pra uma lan house.
Segui seu conselho, fui à lan house, e no final, eles perderam a minha crônica.
Em vez de cortar os pulsos, resolvi subir pra Petrópolis e desligar minha cabeça e computador.
Três horas parados na Serra por causa de um acidente com um caminhão onde os carros pararam e ficavam dando notícias da morte lenta do motorista que perdeu a perna. Agora, era a cabeça que estava em risco, tudo ao som das sirenes dos bombeiros.
