Tempos de guerra
Sempre gostei, na vida, de fazer crônicas, desde o colégio Sion, onde aprendi a ler, escrever e a fazer redações.
Então, quando virei atriz, passei um ano atuando na peça Trair e coçar é só começar, viajando por todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, numa das fases mais alegres da minha vida. Resolvi colocar tudo no papel: um caderno onde eu escrevia com uma Bic. Fiz um verdadeiro diário que mandava, como carta, para minha irmã, que, amiga do Zuenir Ventura, resolveu mandar pra ele, que dirigia o Caderno B do JB.
Zuenir adorou a ideia de publicar os meus escritos, que falavam sobre o cotidiano e, segundo ele, tinham muito humor.
Comecei a escrever pra esse jornal há 21 anos, numa época em que as crônicas tinham saído de moda.
Transformei-as também em livros e ainda escrevi alguns romances. Mas me senti consagrada mesmo, como cronista, quando recebi um telefonema do maravilhoso Rubem Braga, dando-me os parabéns e dizendo que eu "era ele, de saias".
Quase desmaiei de felicidade. Parecida com esta, que estou sentindo agora, voltando ao Jornal do Brasil, que espero que dure mais 20 anos, ou seja, o resto da minha vida.
Obrigada a todos,
Maria Lucia Dahl
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Tempos de guerra
Foi no finalzinho da década de 60 que o Marcello Alencar, na época advogado do meu ex-marido, que era líder estudantil, ao ver a barra pesar pro seu cliente, sugeriu que ele trocasse de nome, visual e passaporte, assim como Dercy Gonçalves contava, no fim da vida, que sair de casa, pra ela, era um sacrifício por ter de colocar peruca, pestana e dentadura.
Só não tinha, como o Marcos, de fugir pra Argentina naquele mesmo dia com cabelos negros em vez de louros e um codinome esdrúxulo que já me esqueci.
Fui imediatamente comprar tinta de cabelo, pincel e cuia. Fizemos tudo a jato e fui, acompanhada da minha sogra, levá-lo na rodoviária, e o largamos na rua, como se nunca o tivéssemos visto.
O Brasil passava novamente por um período de terror dos muitos que já tinha enfrentado desde a ditadura Vargas.
Em 68 íamos a todas as passeatas com a turma do teatro quando Oduvaldo Vianna Filho foi preso por ter pichado o muro do túnel do cemitério, escrevendo: "Abaixo a ditadura".
O policial perguntou o que ele fazia como profissão. Vianinha respondeu que era ator e o policial falou:
"Ah, quer dizer que, além de comunista, é viado?"
Em relação ao cinema, a turma gritava em coro: "Você que é explorado, não fique aí parado!"
Então, passando pela porta do Banco Nacional, um bancário respondeu:
"Somos mesmo explorados por vocês, que captam dinheiro no banco pra fazer uns filmes horríveis e não pagam nunca!"
Corríamos da polícia, dos cavalos, do medo de tudo: de sermos presos, de sermos torturados, mortos e tudo o que se podia fazer.
E agora, tantos anos depois e ainda marcados por mortes e torturas, como não se empenhar na Comissão da Verdade e definir fielmente o que foram mortes, suicídios e torturas nessa fase de "cachoeiras", que desde o Brasil Colônia continuam escondendo a verdade no fundo do poço.
Empenhamo-nos na guerra contra o racismo, nas passeatas gays, na liberação da maconha, e por que aturarmos deputados e senadores no Brasil inteiro roubando o nosso rico dinheirinho enquanto os "cachoeira", ou melhor, cascateiros, inventam histórias tão cabeludas a ponto de emudecer para sempre o pobre senador Demóstenes Torres...
Por que será que nós, os eternos explorados, continuamos parados?
