Jornal do Brasil

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Sobre sapatos, identidades e posturas

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

Talvez seja uma tendência feminina reparar em sapatos próprios e alheios. Pelo menos é isso que sustenta minha filha, a comunicadora Maria Cândida Bingemer, em artigo escrito há alguns anos, ao afirmar entre jocosa e assertiva: “Dizem que o cachorro é o melhor amigo do homem.  Eu, do alto de um belo salto alto, digo: o sapato é o melhor amigo da mulher”. No entanto, parece não serem só as mulheres que fazem dos sapatos o foco de seu olhar. A mídia também.

Todos se recordam de como foi explorado pelas lentes de fotógrafos de todas as nacionalidades o contraste entre os sapatos do papa Francisco – pretos, amarrados, sólidos e muito, mas muito usados – e os finos sapatos vermelhos e sob medida usados por seu antecessor Bento XVI.  Foram inúmeras as fotos que circularam pelo mundo naquela ocasião entre a renúncia do último e a eleição do primeiro, mostrando a diferença do que ambos calçavam.  Certamente ali, católicos e não crentes puderam avaliar a diversidade de perfil entre os dois papas, o atual e o emérito.

Isso só comprova como o sapato diz muito sobre a pessoa.  A partir do momento em que o ser humano percebeu que não podia mais andar descalço e era necessário proteger e cobrir os pés, o processo até a indústria de calçados, uma das maiores do mundo, só fez crescer e diversificar-se. Hoje, as pessoas podem escolher o calçado que desejam usar a partir de suas necessidades reais, seus gostos estéticos e uma infinidade de outros fatores. O sapato no pé certamente diz muito sobre a identidade de alguém, sobre sua postura existencial, profissional e mesmo política.

Na América Latina, são conhecidas as fotos dos sapatos do presidente do Uruguai, José Mujica.  A mídia captura seu aspecto absolutamente velho, desgastado e com o couro descascado, e o exibe mundo afora. E ninguém negará que essa exibição passa a dizer muito sobre a personalidade do presidente uruguaio.   Ficou na história a foto de Pepe Mujica com Cristina Kirchner, Dilma Rousseff e Hugo Chávez em reunião do Mercosul em Brasília, onde as duas presidentes teriam feito comentário crítico e carinhoso ao estado de seus calçados. Segundo a reportagem, Pepe teria dito, alfinetando sobretudo sua colega rio-platense: “São velhos, estão gastos, mas são meus... Por outro lado, meu povo tem a possibilidade de usar melhores sapatos do que os que usa seu presidente...”

Quão revelador é um par de sapatos! Por isso, é de se valorizar a sensibilidade profissional da jornalista Ana Claudia Guimarães quando, no último dia 20 de setembro, publicou em grande jornal carioca as fotos dos pés calçados dos três principais presidenciáveis captadas por ocasião de um debate.  E permitiu ao eleitor ter um olhar mais preciso e profundo não sobre suas expressões faciais e as roupas que vestem, mas sobre seus sapatos. E daí inferir alguns elementos a mais para ajudar no discernimento eleitoral.

Na comparação, o quesito “luxo” ficou com os impecáveis sapatos Ferragamo de Aécio Neves, cujo couro parece seda de tão macio e flexível. Não chega a chocar porque do mineiro tucano não se esperaria nada diferente.  Sempre se vestiu bem, com roupas de grife, e sua imagem está irremissivelmente ligada ao perfil de rapaz bem nascido e habituado com o bom e o melhor desde a infância.

Mas o curioso é que o neto de Tancredo parece não estar sozinho nesses requintes.  A presidente Dilma Rousseff, surpreendentemente, também porta sapatos da caríssima marca Louis Vuitton em seus pés, captados pela lente da reportagem. Isso demonstra que Dilma não só usa túnicas de seda de cores vivas, tem os cabelos impecavelmente penteados e o rosto cuidadosamente maquiado.  Também usa sapatos finos, bons e... muito caros.

A nota de simplicidade ficou por conta de Marina Silva, cujo sapato, de tão comum – embora discreto e correto para a pessoa e a ocasião –  não chega sequer a chamar a atenção. O escarpim preto com o salto alto e grosso completa bem o “look” despojado e quase severo que Marina sempre portou, seja pelo cabelo em perpétuo coque, pela silhueta magra e mesmo franzina, pela maquiagem discreta sobre a pele morena de nortista que é.

E toda essa reflexão sobre sapatos vem a propósito de quê?  Deixo ao leitor a análise e a reflexão sobre o que acabamos de escrever. Um par de sapatos pode não ser neste caso “o melhor amigo da mulher”, como diz Cândida Bingemer.  Mas pode tornar-se um elemento a mais em uma campanha eleitoral marcada por mentiras e ataques de baixo nível.  Cabe ao eleitor julgar, conjugando esse elemento com os muitos outros que pode observar na reta final de uma renhida eleição.

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Departamento de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Ed. Rocco). - agape@puc- rio.br 



Tags: alheios, artigo, eleição, feminina, próprios, tendência

Compartilhe: