Jornal do Brasil

Terça-feira, 22 de Maio de 2018 Fundado em 1891

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Pedro descalço e sem medo 

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

Um amigo me envia o link de um filme que passou recentemente na televisão espanhola: Descalzo en la tierra roja. Narra a vida de um catalão que hoje tem 84 anos, mas trazia a pujança dos 40 ao chegar ao Brasil, em 1968. Seu nome é Pedro Casaldáliga e frequentou muito as páginas dos jornais nos anos 1970 e 1980, sempre em defesa dos pobres e no epicentro dos conflitos de terra que feriam e marcavam a prelazia de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, à qual serviu como padre, bispo, continuando a ali residir e servir até hoje. O filme é longo, dividido em duas partes, e retrata bastante fielmente o processo de conversão por que passou o sacerdote claretiano ao aportar nesta Terra de Santa Cruz e enfrentar a miséria e a injustiça cara a cara. As cenas iniciais nos mostram o padre Casaldáliga vivendo seus primeiros tempos em São Félix, convocado a receber nos braços um bebê morto de malária.  E atrás deste vinha uma verdadeira procissão de mães dolorosas carregando igualmente seus filhos dizimados pela doença.  Pedro chora.  E aí começa sua nova vida. 

A narrativa vai desdobrando à frente do espectador as atitudes e o crescimento deste homem forte e cheio de fé e de coragem que, aos poucos, vê que a situação estabelecida à sua volta é fruto de uma radical injustiça, e, portanto, não pode ser vontade de Deus.  E assim, o europeu frágil de estatura e compleição, se revela gigantesco no desejo e na entrega à causa dos pobres. 

Pedro é poeta.  Em uma cena do filme encontra-se em um barco, indo para Goiânia buscar remédios que possam conter o surto de malária que assola São Félix, e escreve em um caderno.  O barqueiro lhe pergunta o que escreve, e ele responde: um poema ao rio.  Sua sensibilidade é capaz de extasiar-se com a beleza do Araguaia, “que pulsa sob seus pés como uma artéria viva”, com a mata verdejante, e expressar seu louvor em versos ao Criador de toda essa maravilha. E seus versos andam “cheios de Deus como pulmões cheios do ar vivo”. 

Pedro é profeta.  Sua língua de fogo não hesita em proclamar os direitos dos pobres como direitos de Deus.  E ao tomar progressiva consciência da dura servidão à qual os latifundiários reduzem os posseiros que desejam apenas uma terra para cultivar e sobreviver, não poupa denúncias e críticas que lhe valem perseguições e ameaças, as mais diversas e violentas. Mas admite que “não sabe se seria capaz desses caminhos se não estivesse Deus como uma aurora rompendo sua névoa e seu cansaço”. 

Pedro é místico. Trata-se de alguém que experimenta a comunhão íntima e ardente com o Mistério de Deus, que é o Sentido de sua vida.   Em suas andanças pelo Mato Grosso, pelo Brasil, pela América Latina, sobretudo na explosiva região da América Central, contempla Deus presente no rosto dos pobres.  E, no entanto, humildemente, confessa que não sabe se poderia conviver com os pobres “se não tropeçasse com Deus em seus farrapos; se não estivesse Deus como uma brasa queimando seu egoísmo lentamente”. 

Pedro é teólogo.  Embora sempre tenha sido missionário e não docente ou pesquisador da ciência sacra, seus escritos, seus poemas, mas sobretudo sua vida e sua prática são uma teologia consistente e em constante movimento. Ele a pensa e a faz ao lado dos pobres, cada dia partilhando sua “noite escura”, que só a esperança ilumina.  Por isso, proclama que apenas vivendo a noite escura dos pobres se pode viver o Dia de Deus, “pois as estrelas só se veem de noite”. Sua teologia afirma que tudo é relativo, menos Deus e a fome.  E ele escolhe a noite, porque a sabe grávida de madrugada.  E escolhe a privação porque a adivinha caminho para a plenitude. 

Pedro é uma testemunha.  Sua vida atesta a verdade maior do mistério da encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, a Testemunha Fiel por excelência. Em sua fragilidade carrega e comunica a vocação e a missão do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.  E procura fazer verdade a construção de seu Reino, projeto do Deus da vida para todos. 

Pedro é humano.  É alguém que se extasia com a beleza do rio, admira respeitosamente o encanto da mulher e se enternece com a inocência da criança.  E se indigna com a injustiça que ceifa vidas por onde passa.  E se rebela contra a dominação dos poderosos sobre os fracos.  E se insurge com a opressão que pesa sobre as vítimas, assumindo seu lugar solidariamente e deixando clara sua recusa em fazer aliança com quem as esmaga diariamente. 

O filme mostra a trajetória deste homem de Deus, que vai aprendendo e afirmando que o contrário da fé não é o ateísmo, mas o medo. Sua trajetória está toda ela marcada por essa valentia que enfrenta o medo e o supera, forte apenas da graça de Deus. O permanente diálogo de Pedro com Deus aparece nos momentos de oração solitária e de profunda comunhão, quando “descalça sua alma” diante do Senhor.  Mas também e igualmente diante dos pobres que vivem ao seu lado, aos quais entrega seu corpo e sua vida sem temor. 

Pedro escolheu como lema de sua ação pastoral como missionário, como sacerdote e como bispo as seguintes palavras: Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar. Descalço e sem medo, pisando sem defesas a terra vermelha deste imenso Brasil, sua frágil figura é anúncio luminoso de até onde pode chegar a estatura de um homem quando se deixa inspirar e configurar pelo Espírito de Deus. 

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Departamento de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Um rosto para Deus' (Editora Paulus) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). - agape@puc- rio.br 



Tags: Padre, amigo, bispo, catalão, filme, link, missionário

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