Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Escutando o silêncio 

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

Época de eleições é tempo de imenso barulho.  Falam os candidatos, falam os que apoiam ou os que criticam os candidatos, falam os meios de comunicação, falam os jingles, a internet.  Fala Deus e todo mundo, pois a mídia está na rua acompanhando o dia a dia dos candidatos que entre empurrões e abraços são instados a falar tudo o que pensam fazer nos próximos anos para salvar o país do abismo em que se encontra mergulhado. 

E há os debates, onde todos falam para além do tempo que lhes foi pedido e combinado. E falam ao mesmo tempo.  E a fala de um atropela a do outro.  As falas são agressivas, pois têm que convencer pelo seu muito falar  e vencer. E ainda virão os comícios, as carreatas, com música, trio elétrico, microfones e megafones enchendo o espaço público de um grande e ensurdecedor barulho. Na boca da urna haverá militantes esperando-nos com panfletos de última hora, buscando convencer-nos no momento derradeiro. 

Não sou misantropa ou eremita, e longe de mim querer condenar a palavra, indispensável para o fazer político.   Tampouco pretendo desqualificar o necessário debate e   interlocução que povoam o período pré-eleitoral.  Há que falar mesmo, há que discutir, debater, expor pontos de vista.  Porém, se a questão é escolher em quem votar responsavelmente, o discernimento é o caminho necessário. E para tanto não é a melhor conduta deixar-se assoberbar e afogar em infinidade de discursos exaltados.  Há que escolher a melhor opção entre as que se apresentam, sopesando prós e contras, olhando mais longe que os próprios interesses e pensando no bem comum e no futuro do país.  E isto é por demais sério para ser feito se não for alternando silêncio e ruído, silêncio e fala, silêncio e discurso. 

Não é por nada que ao povo de Israel é recomendado retirar-se para o deserto para aí escutar o silêncio sem outra recreação para os sentidos senão a espera da revelação que virá.  Nem é despida de importância a atitude vital de Jesus de Nazaré quando, em meio à febril atividade que constituía sua vida em meio a multidões e andanças pela Palestina, retirava-se no silêncio para ouvir a voz do Pai e conhecer sua vontade. 

Para algo sério como escolher nossos representantes na política que conduzirá o país nos próximos anos, entre eles o primeiro mandatário da nação que é o presidente da República, faz-se necessário alternar. Mover-se entre a escuta das vozes diversas que lançam informações de todo tipo na rede e nas ruas, e ouvir em silêncio o que nos é inspirado na direção do voto. O que significa para mim o ato de votar?  O que estou buscando construir com meu voto? Como este ato tão sério, de  depositar na urna minha escolha para o futuro do país e das novas gerações, pode ser exercido da maneira mais responsável possível? 

No silêncio talvez sejamos visitados por inspirações inesperadas e surpreendentes.  Buscando ouvir sem interromper, sem gritar nem discutir, talvez brote de nosso interior um caminho ou uma opção que não havíamos antes cogitado.  Trata-se de expor-se ao inesperado que será gerado e conduzido ao nível de nossa consciência e influenciará nossa decisão, apontando o caminho.

Talvez nos custe e em um primeiro momento o silêncio se deixe sentir como pura privação, carência, tédio.  Mas se persistirmos se fará palavra e emergirão as coisas escondidas no fundo de nós mesmos, que os muitos ruídos e o falar incessante encobriam. O silêncio é tenso, implacável, decisivo e ilumina nossos medos, nossas motivações não tão retas, nossa liberdade interior não tão despojada.  Na luta que provocará em nosso interior, trará à luz as muitas ambiguidades que nos fazem batizar de belos nomes nossas mais obscuras e desordenadas paixões.

Fazer silêncio, escutar a ausência de ruídos e esperar pela inspiração que nos moverá na direção da liberdade responsável de escolher um candidato é, no fundo, um ato de coragem.  Equivale a afirmar que não somos massa, mas povo com um projeto e uma utopia.  Significa pagar o preço de ser livres e não aceitar que escolham por nós, mas escolhermos quem nos fará mais humanos e a nosso povo.

Uma vez acontecida a fecundação interior, o silêncio deixa de ser incômoda ausência para revelar-se presença, serena e respeitosa, que discretamente dilata nossos espaços interiores, a fim de que a liberdade se concretize em opção que se inscreve na história como escrita da vida.

Enquanto acompanhamos a campanha neste tempo pré-eleitoral, ouçamos os candidatos e suas plataformas.  Escutemos atentamente o que têm a propor.  Mas saibamos igualmente retirar-nos e fazer silêncio dentro de nós mesmos, para que o que escutamos seja ruminado, digerido, processado e transformado em voto responsável e livre, que elege o que sentimos ser melhor para nossos filhos e netos, a quem devemos um país mais justo e uma nação mais consciente.

Esperamos que o que emergirá de nosso silêncio será então a festa do povo celebrando uma vitória serena, madura e alegre, feita de palavra e silêncio, de olhar nos olhos e sorrir alegre e cantar esperançoso na festa cívica do compromisso com a vida para todos.

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Departamento de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Ser cristão hoje' (Editora Ave Maria) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). - agape@puc- rio.br 

Tags: barulho, candidatos, Eleições, internet, jingles, presença

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