Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Julio de todos os agostos

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

No mar de funestas notícias em que se transformou este mês de agosto, hoje queremos prestar tributo ao gênio e ao talento.  Embora a celebração seja de alguém que já partiu, seu legado continua banhando de inspiração nossas vidas e instigando nossas mentes com sua fantástica literatura. 

Há 100 anos, em outro dia 26 de agosto, nascia em Ixelles, Bélgica, na embaixada argentina, Julio Cortázar. Este que seria mais tarde um celebrado escritor, não apenas na Argentina mas no mundo inteiro, nasceu longe daquele que seria seu país.  Voltou para Buenos Aires apenas aos quatro anos de idade.  Este prematuro enraizamento, que na verdade o desenraizou da Europa que já começava a amar juntamente com a separação prematura dos pais, fizeram dele um perpétuo exilado. Assim, quando foi o momento de exilar-se realmente, pois a ditadura se havia instalado em seu país, o talento literário de Cortázar foi estabelecer-se em Paris, na qual viveu até sua morte. 

Meu primeiro contato com Julio foi em um momento encantado de minha vida.  Adolescente de 17 anos, apaixonada por um argentino que posteriormente veio a ser meu marido, recebi de presente de suas mãos o romance Los premios, que devorei maravilhada.  Estava selada uma aliança perpétua minha com a obra deste rio platense/europeu, que me levou a lançar-me com pressa sobre outras obras suas: a genial Rayuela (O jogo da amarelinha), assim como seus contos. 

Ah, seus contos...Como não ler e reler Autopista del sur, que narra a fantástica situação de uma estrada na volta de um feriado onde a quantidade de carros gera um insolúvel engarrafamento, forçando as relações a acontecerem, harmoniosa ou conflitivamente, e gerar experiências humanas inesquecíveis.  E outros tantos... 

Talvez o que mais me tenha chegado ao coração é a história do adolescente hospitalizado que se apaixona por sua enfermeira.  “La señorita Cora” é o nome desta terna peça literária, onde o contista consumado que é Julio Cortázar narra a paixão que vai se apoderando de Pablo, o adolescente de 15 anos internado em um hospital de luxo por sua mãe superpossessiva, a fim de tratar uma apendicite. Cora é a enfermeira que o atende e por quem aos poucos mas definitivamente ele vai se apaixonando. 

E a paixão de Pablo por Cora é definitiva e trágica.  A morte se aproxima de sua tenra idade, e ele não terá tempo para amar outra mulher.  A timidez de Pablo e a seriedade profissional de Cora fazem com que esse relacionamento feito de ternura, enamoramento, desejo e devoção cresça a partir de monólogos interiores.  São essas falas “internas” que constroem a narrativa de Cortázar, o qual conduz o leitor ao desfecho que assinala apenas a cama vazia e logo ocupada por outro doente, enquanto o coração de Cora sofre e sangra de saudades. 

Cora sabe interiormente que Pablo está fazendo sua passagem da infância para a idade adulta e que este parto se dá por causa e através do amor que começa a sentir por ela.  Com extrema delicadeza cuida do corpo doente do rapaz, enquanto vai encharcando sua alma de uma ternura que fará sua “outra” passagem mais doce e mais serena.  E ao longo do conto conquista o leitor a profunda sensibilidade do autor, mestre nos sentimentos profundos humanos e cheio de conhecimento dos meandros psicológicos de que nossa complexa condição de criatura finita é feita. 

Nos últimos anos de sua vida, Cortázar conheceu um amor que foi o maior de todos.  Carol Dunlop, fotógrafa canadense que deixou tudo para trás para seguir Julio e que com ele viajou em Kombi durante meses na autopista de Paris a Marselha. A frágil e corajosa Carol, a quem o escritor chamava carinhosamente la osita, a ursinha. Esta aventura amorosa gerou um livro: Los autonautas de la cosmopista, um singular relato de viagem, com textos e fotos do casal, que Carol não chegou a concluir. 

Cheios de planos e sonhos, o casal teve que viver o conto da señorita Cora em sentido invertido.  Foi ela, então, mortalmente atingida não pela apendicite de Pablo, o menino do conto, mas por uma agressiva leucemia que a levou em poucos meses. E a ele coube cercá-la de carinho e sentir-se dilacerado ao vê-la declinar inapelavelmente. É pungente ler o relato de Julio, descrevendo seus ltimos momentos, quando ela escapou entre seus dedos “como um fiozinho d´água”, forte e corajosa, como sempre havia sido mas empreendendo sozinha a viagem onde ele não podia mais acompanhá-la. 

Um ano e três meses depois, Cortázar – do fundo de uma depressão que lhe minou as forças –  partia ao encontro de sua “osita”, havendo antes terminado o livro que Carol escrevia e não pôde acabar.  O homem que desafiou ditadores e se apaixonou pelo sandinismo como esperança de futuro; que visitou o mosteiro de Solentiname e conheceu a proximidade da mística do trapista Ernesto Cardenal; aquele cuja floração criativa não conhecia estancamento e que passeava seu gênio pela beleza de Paris; fechou os olhos e abriu-os amplamente na pátria dos encontros que não terminam. 

Ali certamente voltou a encontrar sua amada, que partira prematuramente, precedendo-o nesta passagem.  Neste aniversário, no qual celebramos sua vida e obra, agradecemos ao Julio belo e barbudo que nos ensina hoje, como ontem, a jogar o jogo da amarelinha que é a vida.

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Departamento de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). - agape@puc- rio.br           

 

Tags: clara, coluna, cortazar, Maria, puc

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