Jornal do Brasil

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Saudades ao pé de um ipê amarelo

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

Neste momento meus olhos e pensamento se dirigem para um ipê amarelo. Sob ele repousam e vivem as cinzas do grande educador, teólogo, psicanalista, poeta e escritor Rubem Alves, falecido há poucos dias.  O ipê amarelo – a beleza – e Cecília Meireles e Fernando Pessoa – a poesia – foram e são, por vontade do próprio Rubem, seus últimos e definitivos companheiros.

Trata-se de uma morte em perfeita coerência com a vida.  Pois quem semeou mais beleza do que ele, com seu pensar e seus escritos?  Quem jamais viveu tão poeticamente como ele, espalhando poesia por onde passava e ajudando os corações humanos a amá-la?

Rubem Alves nasceu em 1933 e faleceu em 2014, aos 80 anos.  Já há algum tempo conversava longamente com a morte e transmitia o conteúdo de suas conversas aos leitores e ouvintes.  Assim, por ele e com sua autoridade, ficamos sabendo que quem não conversa com a morte é um irremediável tolo.  Mas isso não significa que Rubem Alves fosse alguém triste ou macambúzio.  Pelo contrário, poucas pessoas amaram mais a vida do que ele. A ponto de dizer que não tinha medo da morte, mas sim pena.  Pena de ir-se, de despedir-se desta vida tão bonita e que tanto lhe deu.

Travei contato com Rubem Alves desde os anos 70, quando ingressei na faculdade de teologia da PUC-Rio.  Ali, seus textos eram lidos e debatidos... por alguns, pois sempre havia a suspeita se seriam realmente textos rigorosos, teológicos, dignos da formalidade da academia. Alguns sem dúvida o eram: como o famoso Teologia da esperança, um dos primeiros livros sobre Teologia da Libertação; ou o de Filosofia da religião, que se tornou um clássico, O que é religião, além do Enigma da religião e O suspiro dos oprimidos.

Igualmente, o maravilhoso Conversas com quem gosta de ensinar devolveu o gosto e a alegria a muitas vocações pedagógicas frustradas em nosso país, onde a educação é tristemente maltratada e empurrada para um desonrado último lugar. Ensinar para Rubem era uma paixão.  E ele ansiava por transmitir esta paixão a outros, sobretudo aos que tinham diante de si, em seu cotidiano, uma turma de alunos ávidos por aprendizagem e crescimento.

Os que acompanhamos sua trajetória percebemos que, a certa altura da vida, a poesia ganhou definitivamente espaço no coração e na criação de Rubem.  E seus textos começaram a ser sempre mais poéticos... sem perder em nada a profundidade e a seriedade que sempre tiveram.

Lembro-me de um que me marcou de maneira especial: Tênis e frescobol, sobre a relação amorosa entre homem e mulher, o casamento, enfim sobre uniões duradouras e compromissos longevos.  Nunca li nada tão leve, delicioso e ao mesmo tempo tão verdadeiro.  Distribuí-o a todos os jovens casais que conhecia e posso testemunhar que foi de grande fruto.

Assim era o querido Rubem Alves.  Amigo da beleza e da poesia.  Aprendiz de vida conversando com a morte.  Crente de uma fé que apostava na pedagogia purificada e purificante do olhar e esperava a ressurreição dos corpos.  Mestre apaixonado pela arte de ensinar e pela transformação que vislumbrava vendo os olhos dos alunos a cada coisa aprendida.  Apaixonado pelas palavras que ajudavam o ver mais, mais longe, mais profundo.

A saudade que sua partida nos provoca é imensa.  Como viver sem ele, seu jeito simples de falar tão belamente sobre as coisas mais sérias e complicadas?  Como não ouvir mais as perguntas sábias e desconcertantes com que nos fazia pensar: por que o caqui é vermelho? Voltarei para o lugar onde estive sempre, antes de nascer, antes do Big Bang?

Porém, com ele mesmo aprendemos que “a saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”.  Sentindo a saudade do mestre admirado e querido, a alma me conduz para o pé do ipê amarelo, onde suas cinzas foram lançadas; e me faz voar para mergulhar e olhar com seus olhos a poesia de Cecília e Pessoa; e me faz olhar as pérolas que as ostras produzem com outros olhos e sentimento; e me faz amar as palavras para que elas digam com mais verdade o que o olhar contempla.

Muito aprendi, muito aprendemos com Rubem Alves, com sua refinada simplicidade, com sua alma de poeta, com seu olhar transfigurado pela beleza.  Importa agora seguir suas pegadas de pedagogo encantado e encantador.  E seguir, como ele, encantando gerações para que descubram, em meio à opacidade cinzenta da vida, o multicolorido das flores e das asas das borboletas.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Departamento de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Deus amor: Graça que habita em nós' (Editora Paulinas) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). - agape@puc- rio.br

  

Tags: Beleza, olhos, pedagogo, pegadas, pensamento, poeta, simplicidade

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