Jornal do Brasil

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Após a Copa do Mundo

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

A Copa do Mundo acabou, e tudo voltou ao normal. Os argentinos que tumultuaram a vida de Copacabana e do resto da cidade foram embora.  As camisas dos clubes estrangeiros não se veem mais pelas ruas.  E até Filipão já tem substituto, discutido por gregos e troianos. 

O Exército se foi, o policiamento ostensivo também.  E com eles a paz e a segurança dos cariocas.  A violência que sempre está à espreita por um descuido para de novo atacar vítimas indefesas não se fez esperar.  O Rio ficou em choque com a notícia do assalto e assassinato de Maria Cristina (Tintim) Mascarenhas, uma das donas do restaurante Guimas. 

Esposa, mãe de família, avó e empresária bem sucedida, Maria Cristina era igualmente uma pessoa doce, adorável.  Não tinha inimigos, só muitos, infinitos amigos.  Com o esposo Chico e sua sócia levavam  adiante o restaurante mais simpático da Zona Sul, frequentado não só por pessoas do bairro mas de toda a cidade.  Por que, então, essa violência desmedida contra uma pessoa pacífica, que vivia sua vida, cuidava de sua família e – segundo o testemunho de inúmeras pessoas – era generosa, solidária e não cessava de ajudar os outros? 

A resposta tem duas faces: Tintim andava despreocupada pelas ruas de seu bairro após sair do banco.  Ali sacara uma quantia expressiva de dinheiro para pagar seus funcionários.  Certamente, os assaltantes a espiaram ou foram informados de que levava dinheiro na bolsa.  Este é o primeiro elemento: em uma cidade onde o crime organizado e o tráfico campeiam, dinheiro vivo é sempre poderoso chamariz para manter a máquina criminal funcionando.  

Parece que Tintim, ao sentir que lhe roubavam a bolsa, resistiu ao assalto. Fez o que todos instintivamente faríamos, ainda mais quando se trata de dinheiro destinado a pagamentos.  O problema é que a violência desgovernada não convive bem, nem muito menos harmonicamente com o instinto e o impulso.  Exige frieza, cálculo e nervos de aço.  Quantas vezes já  escutamos que não se deve e não se pode resistir a assaltos, que se deve entregar tudo? Quantas vezes teremos posto em prática esses conselhos?  

Quando a violência transita livremente pela vida da cidade, quem faz a lei são os marginais e não os juristas.  A presença dos criminosos diz onde podemos ou não podemos caminhar; onde é seguro e não é seguro descer do ônibus; como devemos ou não devemos nos vestir e que objetos devemos portar.  Todos esses ditames e orientações destinam-se a definir se podemos  exercer nosso direito humano mais fundamental: continuar vivos.

A lógica e o espírito das leis que vigoram hoje em nossas cidades – e não só no Rio de Janeiro – são invertidos pela situação reinante e dominante.  Não somos mais convidados a viver em plenitude, mas a sobreviver minimamente, esquivando-nos da atalaia que pode esperar-nos em qualquer esquina, do ataque que pode abater-se sobre nós em forma de ameaça, de agressão física, de gravata que aperta o pescoço e sufoca, de arma que atinge e mata, como aconteceu com Tintim. 

O bairro da Gávea se encontra enlutado por essa morte.  A cidade inteira volta a sentir-se ameaçada e insegura.  Acabou-se o tempo da segurança.  Ela funcionou apenas para os turistas que vieram ao Mundial de futebol.  No momento em que estes deixam o país, falando bem da organização da Copa, os habitantes da cidade têm que se defrontar com a dura realidade.  Voltam a chorar suas vítimas e a ter medo de sair de casa e andar pelas ruas. 

É muito triste um país que se constrói não para seus cidadãos mas para mostrar ao mundo uma imagem que não é a sua, criando a ilusão de uma tranquilidade e uma paz que não são verdadeiras.  É triste e duro ter que viver com essa contradição da alegria de uma Copa do Mundo bem sucedida em uma cidade permanentemente depredada pelo fracasso da paz que não consegue se tornar realidade. 

Que Deus console o coração dos familiares de Tintim Mascarenhas e de seus inúmeros amigos.  E que nos dê forças para encontrar caminhos que impeçam  fatos como este de continuarem acontecendo e deixando na boca tão amargo travo.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Departamento de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). - agape@puc- rio.br

Tags: argentinos, copacabana, filipão, normal, Tintim, tumultuaram

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