Jornal do Brasil

Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

O Brasil e a Copa: a consciência dos limites  

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

Onde terminam nossas capacidades, habilidades, relacionamentos, conhecimento, domínio, tocamos nossos limites, e isso nos dói vitalmente. Nosso desejo de tudo aproveitar e ser o centro belo e admirado dos olhares e admirações sente-se radicalmente frustrado. Essa é a experiência que palpita dolorosamente no coração dos brasileiros após a trágica derrota para a seleção alemã por 7 a 1 na semifinal da Copa do Mundo de 2014.

Os limites encontrados podem ser naturais ou cosmológicos. Um tornado, um furacão ou um tsunâmi pode destruir em alguns segundos nossa cidade, ou nossa casa construída ao longo de muitos anos. Uma seca pode sujeitar-nos à tortura de ver como lentamente as frutas se enrugam e morrem nos ramos e como avança o deserto sobre as áreas que conhecemos verdes e florescentes. Não temos controle absoluto sobre nosso mundo. Perdemos montanhas de dinheiro na construção de armas e outras vaidades – como é o caso da Copa do Mundo, pelo menos em boa parte de seus inúmeros estádios inúteis a médio e longo prazos – roubados à tarefa de fazer um mundo mais justo e habitável, uma casa agradável para todos.

O corpo também encontra seu limite. O acidente inesperado – como aquele que tirou o jovem Neymar da Copa; a doença contagiosa que se propaga de país para país, com a velocidade do raio; as doenças culturais geradas pelo tipo abusivo de vida; o desgaste de nossas faculdades; a instalação da doença terminal, que nos reduz quase a um vegetal e que a medicina pode prolongar por anos, nos humilha profundamente, colocando-nos frente a frente contra a verdade da perecibilidade da condição humana.

As doenças mentais que nos distorcem a percepção da realidade podem surgir em qualquer momento, pois viajam escondidas em nosso código genético, nos traumas da infância para assaltar-nos em plena maturidade da vida. Assim também ocorre com nossa vida espiritual.  Somos humilhados espiritualmente quando percebemos não ser o que desejamos ser, e que uma dinâmica de atrofia e morte está enraizada em nosso interior, travando verdadeira guerra entre nossos desejos e impulsos.

O encontro com o limite é inevitável. O desafio é ver como administramos este encontro e como nos posicionamos perante o mesmo.  Se nos tornarmos humildes e nos dispusermos a aprender e crescer, o limite é um espaço de comunhão e de vida.  Se orgulhosamente recusamo-nos a aceitá-lo e o travestimos com outros nomes e máscaras, transferindo responsabilidades para outros e não olhando nos olhos da derrota, da diminuição, da limitação, nos tornamos predadores que em vão buscam garantir para si próprios uma ausência de limite, e acumulam e devoram outros em nossa sanha incansável de vitórias que não admite derrotas.

A experiência decisiva é descobrir que os limites são chamados a viver em comunhão com o ilimitado, e viver em um corpo onde as restrições se complementam para que a vida se expanda e cresça.  Por isso, limite é lugar de comunhão.

Que assim seja para todos os brasileiros que hoje veem escapar-lhes entre os dedos o sonho do hexacampeonato. Sobretudo o povo sofrido, que encontra no futebol uma verdadeira fonte de alegria, que veste a camisa dos craques e torce de todo o coração. Sobretudo as crianças, que vibraram de alegria até agora e nesta terça-feira mostravam os rostinhos banhados de lágrimas porque seu país estava perdendo de goleada para a seleção rival.

É duro, pequenos, esbarrar nos limites.  Mas pode ser também muito pedagógico.  É importante saber que os ídolos são seres humanos e podem falhar.  E muitas vezes falham estrondosamente.  Como aconteceu.  Mas é importante sentir que a geração de vocês tem diante de si a responsabilidade de fazer do Brasil um país grande, não por seu tamanho ou pela quantidade de campeonatos mundiais de futebol que ganhou.  Mas por ter um povo educado, sadio, consciente, que luta por aquilo que vale a pena e investe não apenas nos pés dos craques da Seleção mas em tudo aquilo que pode acabar com a pobreza e promover o ser humano à estatura de sua dignidade.

Uma experiência que estamos vivendo é limitante, dolorosa, humilhante.  Mas também grávida de solidariedade, comunhão, possibilidade de aprendizado.  É bom vibrar com o futebol.  Porém, é muito melhor darmos o máximo de nós mesmos para construir um país digno para um povo que está cansado de tentar superar seus limites e encontrar todo tipo de barreiras pela frente: corrupção, desonestidade, suborno, “jeitinho”, malandragem etc. Que a merecida vitória alemã nos ensine que a competência e o espírito de equipe podem mais que a ginga e a sorte.  E que a existência dos limites não nos diminui; ao contrário, pode fazer-nos crescer muito mais do que os sucessos fáceis.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Departamento de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). -  agape@puc- rio.br

 

Tags: capacidades, experiência, habilidades, limites, relacionamentos

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