Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Chico Buarque de Holanda: 70 anos

Maria Clara Bingemer*

Parece mentira que já lá se vão dez anos desde que escrevi no JB a crônica Deus lhe pague, em homenagem aos 60 anos do gênio da música brasileira  Chico Buarque de Holanda. 

Agora, aqui estamos, novamente, celebrando seus 70 anos. Olho sua foto e lembro de Santo Agostinho, o bispo de Hipona e grande pensador do cristianismo antigo, que dividia as idades do ser humano de acordo com as idades do mundo antigo, indo desde a infantia até a decrepitudo, quando, segundo Coelho Neto, o louro ou o moreno dos cabelos cedem lugar ao branco do luar; e a mobilidade da infância, que deseja o movimento, cede lugar à inércia da velhice, que se aproxima do túmulo, lugar da imobilidade. 

Ora, essa tipologia parece totalmente fora de lugar e de propósito quando se pensa e se fala em Chico Buarque.  As marcas do rosto ali estão, mas longe de caracterizar decrepitude e decadência.  Ao contrário, concedem encanto a mais em um rosto onde os olhos verdes continuam brilhando como dois faróis de gênio e ininterrupta criatividade. O corpo é ágil, e o sorriso, quando acontece, atravessando o bloqueio da timidez, traz de volta a infância alegre e pura escondida por trás das rugas da maturidade. 

Quando se faz memória da vida e obra de Chico Buarque, contabilizam-se 50 anos de carreira.  Sim, 50 anos, o que significa que Chico era quase menino quando começou a cantar em público.  Lembro-me ainda do encanto que espalhou à sua volta ao ser apresentado por Elis Regina no programa O fino da bossa, cantando Pedro Pedreiro.  Creio que o mais extraordinário que se percebeu ali foi a capacidade de dizer coisas seríssimas sem grandiloquência nem efeitos especiais.  Apenas com seu gênio e sua voz pequena e afinada. 

Dali em diante houve muita coisa digna de nota: parcerias com outros grandes compositores, enfrentamento com a ditadura militar, canções com corajoso engajamento político entremeando uma lírica de beleza infinita para dizer o compromisso e as palavras de ordem. Ao mesmo tempo em que cantava a justiça, o imbatível trovador cantou como ninguém o amor e a alma feminina.  Suas canções em primeira pessoa no feminino singular ou plural são hoje bastiões para mulheres que lutam por sua identidade e pelo reconhecimento do seu valor em um mundo patriarcal e machista. 

No total, são 502 obras que Chico tem cadastradas, com 930 regravações. Dentre elas, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) destaca Gente humilde, Anos dourados e Retrato em branco e preto como as mais regravadas. E isso confirma as duas vertentes que acima identificamos como marcantes em sua obra: o clamor pela justiça e o amor em qualquer declinação ou tom. 

Sim, é justo e necessário falar em declinação quando o homenageado é alguém que domina as palavras e as faz dizer o que deseja: sempre beleza, mesmo quando crítica, ou brado, ou lamento. 

Segundo sua assessoria de imprensa, Chico passará o aniversário em Paris, escrevendo seu próximo livro. Com uma trajetória plural e sempre inspirada, os 50 anos de produção de quem hoje faz 70 passam pela música, teatro, cinema, literatura.  E é na literatura que o artista ancora a produção que marca os 70 anos. 

Enquanto é celebrado por um sem-fim de homenagens, ele deverá permanecer cerca de dois meses em Paris, trabalhando na obra que pretende entregar à editora até setembro, para ser lançada ainda este ano.  Quem o conhece diz que Chico é monogâmico em série.  A frase é do jornalista mineiro Humberto Werneck, e não poderia ser mais apropriada.  Quando escreve, só escreve.  Quando compõe, só compõe. E assim mergulha na mais draconiana fidelidade, para depois transitar livremente para outro campo de trabalho.  E faz isso sempre acompanhado pela genialidade que Deus lhe deu e que ele generosamente não se cansa de entregar à sua legião de admiradores. 

Na ocasião de seus 70 anos, dizemos obrigada a Chico Buarque: por seu talento, sua obstinação em cultivá-lo com carinho e persistência, seu jeito sem arrogância e carinhoso de dizer o que todos sentem, desejam, esperam e des-esperam, mas não sabem dizer tão bem.  Queremos agradecer-lhe por ser humano, tão humano com seus defeitos e qualidades.  Mas, sobretudo,  por ser tão humano que sabe dar voz à experiência humana que é a mais fascinante de toda a criação. 

Que venham os próximos 70, Chico!  E as mais de mil composições.  Nós merecemos, e você também!

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros, como 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). - agape@puc- rio.br

Tags: criação, crônica, dez anos, fidelidade, foto, JB, snto agostinho

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