Jornal do Brasil

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Assim se passaram cem anos

Maria Clara Bingemer*

Estou em Sarajevo, Bósnia Herzegovina, para uma reunião de trabalho. Tivemos uma tarde livre e nos levaram para passear na cidade antiga.  Ali nos mostraram uma ponte, lugar histórico onde há cem anos teve início o conflito que marcaria o século passado como o mais sangrento da história da humanidade.

Pois aqui onde estou agora, há 100 anos, no verão de 1914, uma série de eventos desencadeou um conflito global sem precedentes, que custou a vida de mais de 16 milhões de pessoas, redesenhando radicalmente os mapas da Europa e preparando o terreno para o século 20. As guerras que viriam depois, sobretudo a Segunda Guerra Mundial, com o genocídio sem precedentes do Holocausto, foram consequência desse conflito. 

O conflito foi o primeiro exemplo em grande escala da guerra moderna. Tecnologias ainda vistas nas batalhas atuais e alguns recursos bélicos (como ataques químicos), mais tarde considerados crimes de guerra, ali tiveram origem. ?O avião, recém-inventado, foi utilizado como plataforma de observação, bombardeiro e defesa antiaérea para abater inimigos. Entre 1914 e o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, mais de 65 milhões de soldados foram mobilizados em todo o mundo, exigindo grandes quantidades de suprimentos e equipamentos, e drenando cofres de vários países. O continente europeu foi levado à bancarrota.

Por que a Sérvia teria se envolvido em um conflito de tais proporções no início do século passado? 

Em 1914, o Império Austro-Húngaro era grande e poderoso, maior do que a Alemanha e com uma população quase tão numerosa. Fora governado pelo imperador Franz Joseph I desde 1848, que preparara seu sobrinho, o arquiduque Franz Ferdinand, para ocupar o trono. Em uma manhã de julho de 1914, a comitiva do arquiduque foi atacada pelo jovem Gavrilo Princip, de apenas 19 anos, integrante de um grupo de assassinos nacionalistas sérvios. A bomba danificou um carro e feriu dezenas de pessoas, mas o arquiduque não foi atingido.  Porém, quando o carro parou a poucos quarteirões de distância, para que ele fosse ao hospital visitar os feridos, dois tiros foram disparados, matando Franz Ferdinand e sua esposa.

Logo após o assassinato, o Império Austro-Húngaro fez uma lista de exigências para a Sérvia: cessar toda a atividade antiaustro-húngara, dissolver determinados grupos politicos e prender os responsáveis pelo duplo assassinato.  O prazo para que as exigências fossem cumpridas era de 48 horas. A Sérvia, com o apoio da Rússia, sua  aliada, recusou-se a obedecer e mobilizou seu exército. 

Logo depois, o Império Austro-Húngaro, apoiado pela Alemanha, declarou guerra à Sérvia em 28 de julho de 1914. Uma rede de tratados e alianças foi iniciada e em um mês a Alemanha, o Império Austro-Húngaro, Rússia, França, Grã-Bretanha e o Japão, haviam mobilizado seus exércitos e declararam guerra.

O duplo assassinato praticado por um jovem nacionalista sérvio radical deflagrou o trágico  conflito que durou quatro anos. Mais de 65 milhões de soldados foram mobilizados em mais de 30 países. Batalhas ocorriam em toda parte. Com a industrialização, o mundo conheceu armas modernas, equipamentos e táticas para a guerra, que aumentaram enormemente o poder de matar. 

Quase oitenta anos depois, em 1992, a Bósnia Herzegovina foi novamente destruída por uma guerra terrível, causada por uma combinação complexa de fatores políticos e religiosos: o fervor nacionalista, crises políticas, sociais e de segurança, que se seguiram ao fim da Guerra Fria  e à queda do comunismo na antiga Iugoslávia. E também devido ao envolvimento dos países vizinhos, como a Croácia e a Sérvia e Montenegro

Após três anos de terrível violência e mais de 200 mil vítimas, a guerra da Bósnia ainda faz sentir sua presença letal com edifícios destruídos, escassez no país e perplexidade do povo.  O belo coral Pontanima, a cuja apresentação assistimos, demonstrava nas potentes e belas vozes dos habitantes desta cidade o desejo profundo de paz, que cem anos depois ainda parece tão frágil. 

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Ser cristão hoje' (Editora Ave Maria). e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco).agape@puc- rio.br

Tags: Bósnia, herzegovina, ponte, reunião, sarajevo, Trabalho

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