Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Sobre futebol e ética

Maria Clara Bingemer*

A proximidade da abertura da Copa do Mundo, primeira realizada no Brasil em muitos anos, nos traz de volta à memória figuras ilustres que não só  defenderam o Brasil com suas chuteiras como também pensaram o futebol com inteligência, criando expressões que marcaram a vida nacional. 

Talvez entre os mais notáveis se encontre o grande dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues.   Suas personagens futebolísticas ficarão para sempre no imaginário brasileiro, marcando época e configurando o esporte como verdadeira e maior paixão nacional. 

Foi Nelson Rodrigues quem cunhou uma frase da maior pertinência a respeito do futebol e da personalidade do brasileiro em geral.  Disse que temos complexo de cachorro vira-lata.  E nada é mais verdadeiro.  Temos baixa  autoestima, nos comparamos sempre aos estrangeiros como sendo melhores que nós. E apesar de este complexo inferiorizante também se estender ao futebol — Nelson foi um dos que melhor comentaram o derrotismo que cercou a Copa de 70 entre outras — é inegável nossa competência no campo e muito mais numerosas as vitórias que as derrotas. 

Eis que, neste tempo pré-Copa já tão tumultuado, sofrido e cheio de tamanhas frustrações, a diretora do comitê organizador local do Mundial de futebol (COL), Joana Havelange, neta do famoso João Havelange — ex- presidente da Fifa —  declara em rede social que "o que tinha que ser gasto, roubado, já foi", aludindo à etapa pré-competição. 

Incrédulos, lemos e relemos a frase da bonita e normalmente reservada Joana, não acreditando totalmente em nossos olhos.  Pois, então, a autoridade do COL admite que houve roubalheira, desonestidade, gastança descontrolada na preparação para a Copa?  O que pensar depois disso? 

Joana certamente desejava fundamentar seu desejo de que a Copa aconteça e que as manifestações contra ela não cheguem a perturbar a ponto de impedi-la de acontecer.  Até aí dá para entender.  Mas o fato de a falcatrua, o desvio de verbas, a aplicação irresponsável de dinheiro, que escandaliza tantos estrangeiros e também brasileiros, já haver sido consumada, será motivo para dar de ombros e deixar para lá? 

A declaração de Joana Havelange traz, a meu ver, um elemento importante para o estatuto do futebol hoje. Houve um tempo em que era um esporte.  Todos ficavam pendentes do talento de atletas que eram artistas da bola e tinham para isso apenas suas pernas e seu preparo, além de sua genialidade.  Assim vimos os dribles de Garrincha, os gols de bicicleta de Pelé, enfim as maravilhas que marcaram o futebol brasileiro. 

Hoje, porém, futebol virou negócio, com altas somas de dinheiro circulando para comprar passes de jogadores, com a mídia noticiando não apenas o desempenho esportivo dos mesmos mas, sim, e sobretudo suas relações afetivas, suas saídas noturnas, algumas com desfecho trágico.  

O fato de o Brasil ser sede desta Copa do Mundo traz ainda outro elemento que torna o quadro mais complexo: em um país com tantas necessidades e desigualdade, gastar milhares de reais construindo estádios — alguns, não todos — inúteis e que permanecerão subutilizados após o evento choca o mundo. 

Esta é a realidade que vivemos, precisamos  reconhecer corajosa e honestamente, e procurar corrigir rumos. As manifestações tentam chamar a atenção e protestar contra esse estado de coisas, recusando-se a aceitá-lo com resignação. 

Em suma, trata-se de uma discussão ética e não esportiva.  É a ética (ou a falta dela) que foi desmascarada pela declaração de Joana Havelange.  Não se trata, a esta altura, de suspender a Copa.  Não há mais jeito.  Dentro de uma semana ou menos, ela acontecerá.  E sim de aproveitar o momento e as críticas para reconhecer falhas, mudar orientações e reescalonar prioridades no futuro. 

Não será o fim do mundo se o Brasil perder, apesar de toda a paixão da torcida.  Nem será uma calamidade se a mídia internacional fizer duras críticas ao evento e à preparação deficiente para receber os turistas estrangeiros.  Não, a solução certamente não é estimular o complexo de cachorro vira-lata que já nos atrapalha bastante a vida. 

Mas, certamente, é o momento para crescer em lucidez e compromisso ético, desejando e lutando efetivamente para que o Brasil não seja apenas o país do futebol mas o país da educação de qualidade para todos, da saúde de bom  nível para uma população que não pode continuar morrendo à porta dos hospitais sem ser atendida. A atitude fatalista  diante de graves erros cometidos certamente não ajuda em nada o país.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros, como 'Deus amor: Graça que habita em nós” (Editora Paulinas') e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). - agape@puc- rio.br     

Tags: anos, brasil, Copa, havelange, joana, Mundial, Torcida

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