Jornal do Brasil

Sábado, 30 de Agosto de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Caos

Maria Clara  Lucchettti Bingemer*

Ler jornal ou assistir a noticiários na televisão tem se tornado um exercício angustiante.  Não se trata simplesmente de abundância de más notícias.  É uma sensação mais global, mais geradora de perplexidade, que não se consegue entender.  É sentir-se em meio a um castelo de cartas que vai lentamente caindo e não há nada que possa deter esse processo.  Ou ao lado de um castelo de areia vendo a onda grande vir e não poder fazer nada para detê-la.

A sensação é que o país em que vivemos perdeu o prumo, o rumo, o norte.  As coisas acontecem em catadupa, e não se consegue bem tomar o fio da meada e entender o processo que está por trás de todos esses acontecimentos.  Será coisa do momento em que vivemos — leia-se Copa, eleições? Mas a pergunta é se o rastro e o antilegado que será deixado terá vida longa e duradoura, ou morte, sem esperanças de reversão possível.

Tem cabimento os rodoviários em greve outra vez no Rio de Janeiro, apenas poucos dias após uma paralisação?  Há sentido e coerência de o sindicato dizer-se contra a greve e um grupo de piqueteiros pronunciar-se a favor?  E em nome disso parar a cidade, impedindo a população de ir trabalhar?  Quem é diarista está em desespero, sem ter nem um tostão para sobreviver.  Entram nessa categoria pessoas que fazem trabalhos domésticos (faxineiras, passadeiras etc), profissionais que trabalham por conta própria, enfim, um sem-número de cidadãos honestos que precisam chegar ao trabalho mas não têm como fazê-lo, porque estamos na enésima greve.

Mais ensandecido ainda é o incêndio de ônibus durante a greve.  Sobretudo porque não dá para desconfiar em que isso ajuda a quem ou a quê.  É muito fácil ver a quem prejudica, mas a quem ajuda?

Como se não bastasse, os professores paralisam suas atividades outra vez.  Mas não haviam feito greve há alguns meses?  Greve longa, dolorida, que prejudicou muito os alunos.  Os direitos da categoria foram reconhecidos, o consenso afinal chegou...e agora...outra greve.  Mas onde estamos? Em um país onde a educação pede aos gritos para ser priorizada, dá para brincar assim com o ensino e as consequências que terá sobre os alunos mais uma greve em um semestre já tão combalido por eventos vários?

Mas existe também o caos nosso miúdo de cada dia.  A Barra da Tijuca passou horas sem luz.  O racionamento de água vai se tornando realidade, feito pela própria população, muito mais sensata — graças a Deus — que seus governantes.  Os bancos não permitem que se entre, ou que se façam operações em dinheiro, ou que se saque dinheiro do caixa eletrônico.  Por quê?  Greve de vigilantes.  Ah, mas não está em todos os bancos.  E daí?  Basta que esteja em um para que a contribuição ao caos que cresce seja dada.

Em Ipanema, prédios racham e ameaçam cair, e não se sabe se essa instabilidade não é fruto de uma ação externa de alguém que deseja que aconteça exatamente isto.  

Além disso, vejamos o lado Copa. Três estádios não ficaram prontos. Os aeroportos nunca estiveram tão ruins, tão lerdos, tão sujos, tão mal equipados para receber a onda de turistas que se avizinha e já começou a chegar.  Os ingressos para a Copa são literalmente roubados e vendidos a preços exorbitantes por cambistas.  Entre eles, um “respeitável” bombeiro.  Mas, por favor, onde estamos?  Não há ninguém que controle esses ingressos?  De onde esse senhor bombeiro conseguiu surrupiá-los?  De que fonte? De que caixa?

Em suma, parece que vamos sendo afogados por um tsunâmi de incompetência, descaso, desleixo e corrupção, que vai devorando aos poucos a boa-fé, a vontade de viver, a alegria, o sentimento de dignidade e decência.  E não se identifica ao certo de onde vem.  Do governo?  Não só.  De forças paralelas que pretendem atrapalhar a Copa e criar o clima de “quanto pior melhor”?  Também não só.

O que é certo é que o ser humano não tem vocação para o caos. A anomia nunca foi caldo de cultura apropriado para que a vida humana floresça, se expanda, cresça e frutifique. Por isso, a humanidade se deu a si mesma leis, normas, limites, a fim de poder conviver com o outro, o diferente.  Nem sempre as leis cumpriram esse papel.  Mas a sensação é de que estamos começando a sentir saudades delas.  Viver à deriva, em mar alto, não combina com a vida de cada dia que precisa ser buscada, trabalhada, cansada e recomeçada. 

Sobreviver em meio a esse caos está sendo um desafio quase maior que as nossas forças.  Oxalá aconteça algo semelhante ao princípio de tudo, quando o Amor ordenador fez brotar do caos o cosmos e a vida, plural e pujante.  Esse ordenamento — que nada tem de ordem rígida e fixista — é um desejo que hoje pulsa no coração de cada brasileiro.

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros, como 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). - agape@puc- rio.br 

Tags: geradora, Jornal, noticiário, notícias, perplexidade, sensação, televisão

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